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Moggo
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MensagemAssunto: Passagem   Sex Jan 20, 2012 4:56 pm

Olá malta! Aqui têm outro texto-a-caminhar-para-tijolo. Fantasia, desta vez. Outros mundos e demandas e magia, e toda essa cambada. (A única coisa que não tem é um mapa todo xis-pê-tê-ó, porque não tenho paciência ou conhecimento de cartografia suficiente para desenhar um.)

E vai ser comprido. Muito, muito comprido. Tão comprido que ainda estarei a trabalhar nesta coisa dentro de uma década, visto que contrariamente a como escrevi Coração de Relógio, desta vez eu coloquei algum esforço no wordbuilding. Para além disso, estou consciente de que o início é uma carga de seca, e de que há demasiados pontos de vista a entrechocar, o que faz de Passagem uma história não muito recomendada a gente de pouca paciência. Oh, e também não haverá romance excepto no sentido mais superficial possível e em termos de subtexto. Desculpem...



Prólogo


Era fim de tarde, e Verão.

A temperatura berrava o contrário. Ela berrava Inverno, graus negativos e casacos grossos. Se trenós, chocolate quente e bonecos de neve fossem conhecidos naquele lugar, ela berraria por eles também, mas conhecidos eles não eram. A querer-se esmiuçar, graus também não eram uma noção com que os habitantes da montanha estivessem familiarizados. Do tempo, falava-se em termos de menos frio, frio, muito frio, gelado e deuses, o meu dedo do pé acaba de cair.

Aquele dia ia em dedos do pé. Isso não era problema para Aure. Aure vivera na montanha toda a vida, e sentir-se-ia em casa num icebergue, se um acaso do Destino o tornasse necessário. Aure tinha por volta de dezoito, dezanove anos. Datas de nascimento não eram algo que a sua gente anotava. Para além de um indeterminado número de anos, Aure tinha cabelo castanho, a constituição física de alguém que engolira um boi, e uma grande dose de loucura.

Ela ia montanha acima, e colada a ela ia Mena, a sua sombra e melhor amiga. Mena era um ano mais nova, uma cabeça mais baixa, e uma boa porção mais delgada. Por, ao contrário de Aure, ela viver numa das aldeias na base da montanha, onde a temperatura era mais amena, Mena era também muito menos resistente ao frio.

- Aure…- arfou ela, a dada altura da subida. – Eu não acho que isto seja sensato!

Aure olhou para trás, arvorando o sorriso paciente de quem já ouviu o mesmo ser repetido até à exaustão. Naquele ponto, o que saía da boca de Mena entrava-lhe pela orelha direita, dava uma cambalhota no interior do seu crânio, e após descer a pique, saía em jacto por um orifício que não era a orelha esquerda. Mena queixara-se o caminho todo, e estar habituada a ouvi-la não tornava o rol de reclamações e pedidos para que regressassem menos maçador.

- Nunca disse que pretendia ser sensato. A ideia é ser divertido. Despacha-te, sim? - Mena ficou parada onde estava, de braços cruzados mais para se aquecer do que por teimosia.

- Este é o lugar dos deuses – declarou a jovem. - Eu não posso estar aqui. Se alguém souber que aqui vim, irei meter-me em problemas. Não é suposto…

Aure revirou os olhos para ela.

- Tu estás comigo. Não vais arranjar problemas estando comigo. Além disso, não vamos estar sozinhas lá em cima. Os outros já devem ter chegado por esta altura. E duvido que tenham parado na subida tantas vezes como nós, porque duvido que algum deles tenha trazido alguém que está sempre a pedir para regressar porque tem medo.

- Eu não tenho medo. Penso que…que está frio demais, só isso!

- Má mentirosa, tu. E lá em cima está calor, não vais sentir esse frio por muito mais tempo. - Aure ajeitou o capuz e continuou a andar, sabendo que contrariada ou não, a outra não demoraria a juntar-se-lhe. Acertou. Instantes depois, Mena já se lhe colara aos calcanhares novamente, apesar de manter uma expressão de intenso desagrado. Aure não fez caso dela.

Enquanto subiam, Mena remoía pensamentos amargos. Não fazia diferença que lá em cima fizesse calor. Ela queria estar quente, mas queria estar quente em casa. As luvas de lã que lhe cobriam as mãos não bastavam para impedir o frio de morder as pontas dos seus dedos, com dentes afiados que se cravavam neles como agulhas. Ela não devia ter prestado atenção a Aure. Aure dava-lhe problemas, e não guardava um único para si.

Eram amigas. Mena nunca o negaria, tal como não negava que sem Aure, lhe restariam preciosamente poucas pessoas com quem partilhar o que lhe ia dentro da cabeça. Aure escutava-a e entendia-a e comiserava com os seus dramas e ansiedades, mas Aure entendia reciprocidade, também. O preço a pagar por uma ouvinte atenta era a ocasional obediência aos desejos dessa ouvinte, ainda que a sensatez de lhe obedecer fosse questionável, e aquilo que esta sugeria fazer não muito aconselhado.

- Tu verás – disse Aure, abrindo os braços e descrevendo uma pirueta. – De lá de cima consegues ver os limites de Ponto Central, e um pouco das Terras Selvagens, também. Eu já lá estive tantas vezes que perdi a conta, e nunca me trouxe problemas. Preocupas-te sem razão.

- É diferente para ti. Tu tens a vantagem injusta de ser um deles.

- Oh, não sejas… – começou Aure, e deteve-se subitamente, tão depressa que Mena só deu por isso tarde demais, e embateu nela. Aure esticou o braço e abriu a mão, sentindo o vento passar por entre os dedos. – Está…quente demais. Vamos a meio caminho, e o calor só se faz sentir muito mais lá para cima. - A jovem ajoelhou-se, usando a mão para livrar uma parte do chão de pedrinhas. Ela encostou a mão à superfície limpa, para a retirar passados poucos instantes. As linhas de riso à volta da sua boca haviam desaparecido. – Morno – disse, e agora que Mena olhava melhor, havia menos neve e mais água do que seria natural. – Mera, não gosto disto. Vamos…

O topo da montanha explodiu em cima delas.


Última edição por Moggo em Dom Fev 19, 2012 3:50 pm, editado 9 vez(es)
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MensagemAssunto: Re: Passagem   Sab Jan 21, 2012 8:32 pm

Ai, gostei. Adoro a forma como escreves, é consistente e ao mesmo tempo leve, graças às expressões que usas para descrever. Agora quero é ver o que vai sair daqui Very Happy
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Moggo
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MensagemAssunto: Re: Passagem   Sab Jan 21, 2012 9:15 pm

Capítulo I



A noite era como uma capa que envolvia Krende, capital de Drava e terceira mais mágica cidade do continente, e as pessoas nela por extensão, fossem estas habitantes ou visitantes. Mena, visitante, sentia o poder na pele, estando desde há três ruas para trás tomada de um tique que a impelia a levar as mãos ao pescoço de momento a momento.

Os seus olhos correram as casas de telhados bicudos, pousando nos números das portas que as candeias postas nas suas soleiras iluminavam. De quando em quando, a jovem olhava para trás com uma expressão que disfarçava mal o seu receio. Krende era um modelo de civilização, mas ela suspeitava que nem todos os seus habitantes haviam sido devidamente informados disso.

Havia uma casa no beco sem saída ao fim da rua. A casa era a mais sombria de todas as com que Mena já se deparara, e era, sem surpresas, a casa que procurava. A rapariga deteve-se, com os nós dos dedos a centímetros de tocar na madeira, para examinar o elaborado pentágono dourado pintado acima da maçaneta. Um qualquer símbolo quintano do qual desconhecia o significado. Cinco anos passados com os Servidores da Causa, uma sociedade de estudiosos de questionável importância, tinham aumentado os seus conhecimentos muito para lá da educação que recebera na montanha. No entanto, religiões alheias não eram nem nunca seriam o seu forte.

Na montanha venerava-se – venerara-se - o povo dos elementos, deuses tangíveis a quem era possível falar-se e apertar-se a mão. Mena nunca entendera quadranos e quintanos, com as suas divindades invisíveis que sobreviviam à custa de rezas e rituais.

Era-lhe difícil conceber um deus, ou quatro, ou cinco, para quem importasse que sacerdotes pintados dissessem as coisas certas nas datas indicadas. O povo dos elementos sabia reciprocar: tempo favorável e protecção em troca de respeito, mão-de-obra e provisões. Uma orelha atenta em troca de uma experiência de quase-morte. Podiam aqueles que alimentavam os seus deuses com orações gabar-se de verem as suas preces atendidas com a mesma frequência e celeridade?

Mena fixou o pentágono por um bocado. Mais outro detalhe respeitante a quadranos e quintanos que nunca lhe entrara na cabeça era a confusão que estes faziam à conta de um número. Ambas as crenças baseavam-se na mesma história – mito, pensou a rapariga com desdém. Não estava provado que no início, haviam existido um Deus das Chamas, um Deus das Águas, um Deus dos Ventos e um Deus dos Rochedos. Que interessava se houvera um deus Destino para além desses quatro? Ninguém sabia de quantas centenas de indivíduos se compunha a parte do povo dos elementos que habitava as Terras Selvagens, nem quantos deles se concentravam no litoral nortenho do continente.

Ninguém se preocupara em contar, pois não era importante. E ao contrário das divindades quintanas e quadranas, a existência deles encontrava-se provada para lá de qualquer discussão. Um deles salvara-a. Mena não precisava de outra prova que não o facto de ainda estar, contra toda a probabilidade, viva.

A mão da rapariga bateu na porta uma, duas, três vezes. Nem um segundo decorreu, e apareceu-lhe pela frente uma visão assustadora. A visão usava um vestido verde, tinha cabelo comprido, e examinou-a com dois olhos que se perdiam no oceano de rugas que era o seu rosto.

Não era o mais bonito dos oceanos.

- Vens da parte dos Servidores da Causa? – A sua voz soava como o raspar de uma unha em ardósia. Mena acenou. – Ah. Bem-vinda, deus Destino te guie o caminho, o costume. Entra.

Sem aguardar a sua reacção, a velha mulher fincou-lhe uma mão no braço e puxou-a para dentro. Mena não conseguiu sequer protestar. As duas atravessaram um corredor comprido, que a velha percorreu em andamento resoluto e Mena percorreu a reboque, enquanto ia efectuando uma catalogação mental do que via. Nada havia ali de acolhedor, descobriu. A palavra “acolhedor” resolvera dissociar-se de tudo o que se encontrasse relacionado com aquela casa. O espaço era impessoal, as paredes pintadas de um amarelo pardacento e desprovidas de adornos. Quem a habitava ou não desejara que o espaço providenciasse pistas em relação à sua personalidade, ou resolvera levar o minimalismo ao extremo.

Mena só reparou que ela própria era também alvo de escrutínio quando já iam a meio do corredor.

- De onde és, se é que posso perguntar? Costumo ser capaz de saber pela pronúncia, mas como ainda não disseste uma palavra que fosse…

- Ponto Central. – A rapariga falou depressa, e depressa soube que errara em fazer a boca adiantar-se ao cérebro. O ar desinteressado da outra acabava de perder o “des”.

- Ponto Central? Mas tudo o que há para lá é bárbaros, e tu não pareces um.

Mena acenou. A mulher estava certa, ela não parecia. Era branca como cal, não tinha um grama de gordura no corpo, e os seus olhos, estragados por noites a ler documentos centenários à luz das velas, tendiam a adquirir um ar embaciado e ausente que facilmente se confundiria com palermice ou simplicidade mental. Não possuía, em suma, um ar muito barbárico.

Mena orgulhava-se disso.

- A ocupação bárbara do Ponto é recente. Abandonei-o antes de lá se estabelecerem.

- Montanha ou periferia?

- Montanha – replicou ela, antes de se conseguir conter. Agora a mulher examinava-a com o ar de quem elaborava complicados cálculos mentais.

- Foste uma das felizardas que conseguiu escapar antes da Grande Desgraça. – Era uma afirmação, mas soava a pergunta. A rapariga pensou que nunca se habituaria àquela designação. Grande Desgraça podia significar tantas coisas diferentes. Muitas calamidades haviam passado e sido assim denominadas. Havia quem se referisse à guerra que se travava como sendo uma grande desgraça. Na opinião de Mena, quando o centro do centro do mundo rebentava e se convertia num inferno na terra, esse acontecimento merecia um título no mínimo único.

- Sim, eu tinha-me mudado para Santro na Primavera anterior. Estava longe quando aconteceu. – Seis anos mudavam muito. Entre outras, tinham-na ensinado a mentir com uma ligeireza de fazer inveja a um mestre, de cada vez que lhe colocavam aquela questão. Mentir era preferível quando tratava com perfeitos desconhecidos. Não só lhe poupava tempo, como a poupava a sons de descrença e olhares incrédulos.

- Muitos não foram tão sortudos – comentou a velha, como se isso fosse culpa de Mena. – Quando a montanha foi pelos ares, juro que até eu ouvi o estrondo, e eu estava a passar uma temporada no litoral. Contaram-me que em Hamla e Brone, houve gente a ter blocos de rocha do tamanho de um homem adulto a entrar pelos telhados. Desastroso.

- Sim, eu lembro-me. De ouvir falar nisso.

- Aqui em Drava os maiores estragos foram mais para este, e não atingiram Krende. O Destino poupou a nossa cidade à rocha, mas negou-se a poupar-nos ao frio. Inverno mais frio de sempre. Ninguém viu o sol durante meses, e a minha mãe foi-se por causa disso. Uma sagrada de uma mulher, forte como um touro, mas o frio entrou-lhe nos ossos e pronto, partiu antes da sua hora. Desgraças e mais desgraças, foi o que…

- Lamento muito por ela. – Mena imaginou que idade não teria a mãe daquela velha à data da sua partida. Ela imaginou-se partir quando se era mais antigo que a terra contava como “antes da sua hora”.

- Ah, bom, mas não penses que ela foi a única desgraçada, o meu pobre pai…

- Lamento muito por ele.

- E claro, não vamos esquecer as pobres almas que estiveram mesmo lá. Modo horrível de ir desta para outra, se queres que to diga. Imolação através dos elementos pode ser uma morte honrada e para mais ainda é tradicional, mas digam-me lá qual é a honra em nos cair uma pedra em chamas na cabeça e irmos…

- Ouça, eu - começou ela, num derradeiro esforço para travar a avalanche de conversa -…gostaria de saber o que vos levou a chamar-me. - A velha deu-lhe um sorriso que exibiu os seus dentes todos. Mena contou-os. Eram oito.

- Paciência, meu amor. Tudo a seu tempo e a seu tempo tudo se fará. Qual é o teu nome? Devia ter perguntando logo, mas nesta idade já não tenho a cabeça que costumava ter.

- Mneme – respondeu Mena. Ela apropriara-se daquele nome há cinco anos, no dia em que a presilha da capa castanha lhe fora fechada por um dos mestres dos Servidores da Causa, e era com ele que se apresentava. Ela ainda era Mena dentro da sua cabeça, porém.

A velha cobriu a mão com a boca.

- Mneme? Como a falecida Senhora de Runa? – Os ombros da jovem descaíram. Podia ter-se tratado de uma escolha um tanto ou quanto infeliz, tendo em conta que Runa era actualmente um espinho de proporções gigantescas que ia bem encaminhado para se tornar numa ameaça ao mundo inteiro, mas ela não soubera disso quando seleccionara o nome. – Pais com delírios de grandeza são uma coisa terrível.

Mena engoliu um vernáculo que lhe sobrara dos tempos de pobre camponesa, e que raramente abandonara a sua boca nos passados seis anos. A rapariga amaldiçoou a má sorte de ser a única Servidora nas imediações de Krende a quem não fora dada nenhuma missão relacionada com a guerra, e que portanto se via forçada a aceitar qualquer tarefa estúpida que os seus superiores resolvessem atribuir-lhe. De que lhe servia um nome de Senhora de Facção, se uma velha qualquer tinha rédea livre para a ridicularizar?

- Você fala muito - disse ela. Pela primeira vez, a outra assumiu um ar sério.

- Eu não me queixaria disso se fosse a ti, queridinha. Se os meus lábios não estiverem a mexer, os meus ouvidos começam a funcionar, e não acreditarias se te contasse metade das coisas que oiço.

- Tal como? – pressionou ela, para se ver privada de resposta graças à interrupção de uma outra mulher, cuja cabeça assomou de uma porta ao fundo do corredor.

- Sidra, faz favor de baixar o volume. – A sua voz era ríspida, o seu cabelo castanho-claro sem traços de branco ou cinzento, e o espaço em volta dos seus olhos preenchido por rugas. Mena sentiu dificuldade em atribuir-lhe uma idade. – Para desrespeitar uma noite como esta já me chegam as duas gralhas lá em cima, e a eles dou o desconto de não saberem exprimir luto de um modo que o resto da humanidade compreenda. Tu, minha cara, tens idade para não antagonizar quem nos vem fazer favores.

Sidra soltou um “Harum!” que foi ignorado. A mulher virou-se para Mena.

- Mneme, certo? Ni Sagani. – Mena apertou a mão que lhe foi estendida, perguntando-se onde Sagani ficava e porque razão a mulher teria omitido o “de”. Terras Selvagens, provavelmente. Ou alguma província menor. Geografia era mais o seu forte que teologia, mas não por uma larga margem. Mena conhecia os nomes das vinte e uma facções do continente, das ilhas maiores e de boa parte das povoações de relevo. De Sagani, nunca ouvira falar. - Não deixes que a Sidra te dê a impressão de que não estamos gratos por teres vindo. Sei que a viagem até aqui deverá ter sido arriscada para uma pessoa só.

Ah, enfim. Reconhecimento.

- Nem tanto – disse Mena, empertigando-se. - A guerra mal se estendeu até Hamla, e juntei-me a um grupo de refugiados durante metade do caminho. Estive segura.

- E ainda bem. – Mena apanhou o olhar significativo que passou entre Ni e Sidra, um tão significativo que não fazia a mais pequena ideia de qual o seu significado. – Se vieres comigo, já te explico o porquê de te termos chamado.

Um pouco menos relutante em seguir alguém que à primeira vista possuía uma certa noção de etiqueta, a jovem apressou-se atrás de Ni, espreitando para trás das costas para ver se Sidra fazia o mesmo. Mas a velha já desaparecera, para dentro da sala da qual Ni saíra. A porta fechou-se nas suas costas. Detrás dela, começou a sair uma litania murmurada que fez a rapariga deter-se a meio de um passo. A voz que murmurava era grossa, e claramente não a de Sidra, mas não foi essa a razão de ela se ter detido.

O que a deteve foram as palavras. A sua mente foi atirada para trás no tempo, para os dias depois da Grande Desgraça. Para os funerais a que assistira, nos raros casos em que um corpo fora recuperado, para os tantos e tantos funerais. Apesar de a religião quintana nunca ter tido grande aderência em Ponto Central, alguns tinham sido enterrados de acordo com os ritos desta. Ela lembrava-se. Cremação era a norma. Fogo a fazer do corpo cinza, lançada ao vento sobre água. Identificar símbolos continuava a não ser o seu forte, mas Mena conseguia identificar uma oração fúnebre quando ouvia uma. E de repente, era capaz de se lembrar do que o pentágono significava.

- Alguém…estão…- A jovem hesitou, sem saber como devia colocar a pergunta sem soar ofensiva ou intrometida. Estando na dúvida, optou pela frontalidade. – Alguém morreu?

Ni assentiu, grave.

- Sua Senhoria Exor de Drava, que o limbo o trague. Houve um ataque ontem à noite, lá no palácio. A família real foi chacinada, junto com todo e qualquer um que se atravessou no caminho do assassino. Dezanove pessoas, e uma única degolou-as a todas. Aias, dignitários, nobres, uma das filhas senhoriais, e quem mais tiver sido. Voxdel, o seu filho e próximo Senhor de Facção, vive ainda, mas encontra-se longe, para sul. Dizem que Runa ordenou o ataque.

Mena não soubera disso, tendo chegado à cidade há poucas horas, e ela esperara que a morte tivesse sido de alguém naquela casa, mas não foi totalmente apanhada de surpresa. Desde que a guerra tivera início, há um ano atrás, assassinos a mando de Serge de Runa haviam deixado um rasto de sangue em mais casas senhoriais do que uma. Os assassinatos precediam a invasão. Brone fora a última facção cujos governantes haviam sofrido o mesmo destino que os das restantes oito, e Brone caíra no espaço de um mês.

Até ali a conquista processara-se sequencialmente. Corsize, Lavrene e Pallei, territórios com os quais Runa fazia fronteira, tinham sido respectivamente primeira, segunda e terceira facção a baixar as armas e submeter-se. Daí os exércitos haviam-se deslocado para norte, apoderando-se pelo caminho de Closte, Eriz, Jala e por fim, Brone. Só a conquista de Santro não obedecera ao sistema, menos devido a uma quebra intencional do padrão e mais por se tratar de um bocado de terra tão minúsculo e insignificante que Serge pura e simplesmente não lhe prestara atenção até mais tarde.

E agora, parecia que a sua atenção se voltara para Drava.

- Terrível – murmurou a rapariga. Drava fora a sua base permanente durante ano e meio, mas aquilo levava-a a ponderar se não seria altura de pedir transferência para uma facção que não se encontrasse em risco de ser invadida. Sada era uma possibilidade. O Lar dos Servidores situava-se lá, e estes ainda não haviam sido demasiado molestados. – É curioso, que não tenha acontecido primeiro em Hamla e Rocelte. Entre aqui e Brone, o exército terá obrigatoriamente de atravessar uma dessas facções, a não ser que Serge pretenda fazê-lo passar por Ponto Central.

- Ele não passará por Ponto Central – disse Ni. – Serge não estaria na posição em que está se fosse estúpido. Ele não se virará contra Ponto Central mais do que se virará contra as Terras Selvagens. Se o fizer, o povo dos elementos tratará de arrasar as sobras que os bárbaros deixarem do seu exército. Mesmo pondo de parte o facto de um em cada quatro deles ser um mágico, as tribos estão fora do Tratado de Miora. Nada impede que estabeleçam ligações comerciais com o Mundo de Cima, significando que caso lhes apeteça, têm os meios para encher de chumbo qualquer invasor.

- Chumbo, sim. – No tempo em que Mena vivera no Ponto não era estranho, apesar de longe de comum, um ou outro habitante da sua aldeia aparecer com artefactos vindos do mundo acima do continente. Lembranças da vez em que um dos rapazes surgira com uma metradora ou malhadora ou como quer que se chamasse a amaldiçoada coisa, estavam vivas na sua memória. Tecnicamente, o tratado que proibia contactos entre os dois mundos não excluía os bárbaros. Estes ignoravam-no, simplesmente. – Foi por causa da guerra que me chamaram, ou por causa dos assassinatos? Porque em ambos os casos, receio que haja preciosamente pouco que possa fazer para vos ajudar.

- Ambos esses assuntos encontram-se relacionados com o que nos levou a chamar-te, mas nada temas. Ninguém te irá pedir milagres.

- Isso é um alívio – disse Mena, forçando um sorriso. A ordem que a conduzira até ali viera de Sada. Como esta se transmitira à velocidade que transmitira a jovem não sabia, mas suspeitava ter havido magia envolvida. Os seus superiores não se teriam dado ao incómodo se o pedido, e sobretudo quem fizera o pedido, não fosse importante.

Assim, apesar de a sua língua arder para exigir o porquê de a sua presença ser necessária, Mena conteve-se e convenceu-se a não desgraçar com a sua impaciência a sociedade que servia. Ni parou junto de uma porta e virou-se para ela.

- Em que grau dos Servidores estás tu? – Uma pergunta normal, à qual Mena respondeu com um “principiante”. – E foste testada quanto ao teu potencial de passante?

Aquela já era uma pergunta menos normal.

- A realização desses testes não é do conhecimento geral.

- A realização desses testes é do meu conhecimento. Deduzo que o resultado tenha sido positivo. – A mulher revirou olhos ao ver a cara surpreendida com que a jovem recebeu a afirmação. – Mneme, quando contactamos os teus superiores, pedimos especificamente que nos enviassem um passante. Não se trata de uma dedução tão espantosa assim.

Mena foi guiada para a divisão atrás da porta. Uma cozinha, como veio a verificar.

- Para que precisam de um passante? - Para ser franca, ela nem sabia que havia uma utilidade para algo como ser um passante. Oh, sangue de passante era um catalisador essencial para a transição entre mundos, mas o plano de vida de Mena não englobava uma viagem para o mundo acima do continente. O teste era rotineiro, efectuado para evitar que manuseamento incorrecto de objectos mágicos poderosos fizesse Servidores desaparecer inesperadamente e reaparecer do outro lado do limbo. Como os objectos em questão só se encontravam acessíveis aos graus superiores, Mena nunca até ali prestara atenção ao seu resultado positivo, não sendo algo que lhe afectasse a vida do dia-a-dia.
Ni, pelos vistos, pensava diferentemente.

- Circunstâncias extremas obrigam a que partamos para o Mundo de Cima ainda esta noite. Precisámos da tua ajuda para o conseguir. – Quando a rapariga produziu um som estrangulado, a mulher suspirou e indicou-lhe que se sentasse, enquanto ela própria se dirigia ao armário e retirava uma garrafa. – Bebe isto. Não te posso explicar a história toda, mas expor-te o essencial deverá ser mais fácil com um ou dois copos em cima.

Mena pegou na taça que lhe foi estendida, esvaziou-a de uma só vez e orgulhou-se de o fazer sem derramar ou deixar os dedos tremer demais. Ni esperou que ela terminasse para puxar uma cadeira para si. A mulher inclinou-se sobre a mesa, não excessivamente, mas o suficiente para dar a Mena a impressão de que estava a ser posta ao corrente de uma confidência importante.

- Há momentos, quando te falei dos assassinatos, referi que se diz que Serge o fez. O que se diz difere daquilo que eu sei, mas antes de me alongar sobre isso, gostaria que me contasses tudo o que sabes sobre a casa senhorial de Runa.

- Sei o que o resto do mundo sabe. Trivialidades e boatos.

- Que sejam trivialidades e boatos, então. Fala. - Mena teria preferido que lhe fosse dito, preto no branco, o que Ni e quem quer que se encontrasse combinado com ela pretendiam fazer no Mundo de Cima. Porém, a mulher parecia ser o género de pessoa incapaz de não converter uma explicação simples numa história. Contrariada, a rapariga rebuscou a memória e fez-lhe a vontade.

- O Senhor de Facção vigente é Adren II. Kale de Runa é o seu filho primogénito, e primeiro na linha de sucessão. – Kale, segundo ela ouvira de mais do que uma boca, era fruto de adultério, possuía a mesma ambição que uma maçaneta de porta, e tinha quase a mesma inteligência que a dita cuja. - Serge é o seu segundo e único outro filho. – E Serge havia sido um nada até há um ano atrás, altura em que se tornara o mais temível conquistador que o continente vira em talvez quatro décadas, desde que Ennis de Rask tentara o mesmo mas com piores resultados. – A mulher de Adren morreu há anos. – Mena não diria o seu nome por temer ridicularizar-se, mas dúzias de Senhoras de Facção tinham-se chamado Mneme. Era um nome vulgar! – Serge não tem mulher, mas Kale desposou Serisa de Drava há cerca de dois anos. – E segundo certas e determinadas fontes, não partilhava cama apenas com ela. - Até à data, não há descend…

- Chega, Mneme – interrompeu Ni. - Já tocaste no único ponto que me interessa. Serisa de Drava, Drava como em, a facção na qual nós estamos, encontra-se entre as vítimas mortais do massacre de ontem à noite.

Mena engasgou-se em seco.

- O que em nome de tudo quanto é sagrado fazia ela aqui, em vez de estar em Runa?

- Não posso fazer mais do que conjecturar, mas se queres uma resposta franca, refugiar-se na sua terra natal não lhe deverá ter parecido uma ideia tão má quanto isso, atendendo o estado em que se encontrava. – Antes de Mena poder questionar que estado vinha a ser esse, a mulher adiantou-se-lhe. – Serisa estava grávida de meses quando aqui chegou. Uma condição perigosa, tens de concordar, quando a criança que se carrega é o herdeiro de um futuro Senhor de Facção, e o nosso cunhado um homem ambicioso.

Mena julgava que começava a juntar as peças. Algumas estavam perdidas, outras só dispersas, e o desenho que formavam não era um que reconhecesse à primeira vista, mas uma porção delas encaixavam nos lugares correctos. Embora pudesse não se encontrar mais perto de descobrir qual a urgência de ir até ao Mundo de Cima, o que Ni lhe dizia não lhe era estrangeiro, e o seu raciocínio seguia-se com facilidade.

- Serisa era o verdadeiro alvo do ataque, não o resto da casa senhorial – disse, orgulhosa por o ter concluído sozinha. - Serge mandou assassinar a esposa do irmão para assim retirar do caminho mais um competidor pelo domínio de Runa.

Ni riu-se. Apesar de ser um riso longe de agradável, ele não deveria ter lugar ali.

- Uma explicação inteiramente plausível – comentou. Mena corou com o elogio. – Algo assim seria perfeitamente esperado e em carácter para Serge, pelo que não duvido que te vá surpreender que ele não esteja nem marginalmente envolvido no massacre.

- Não está? Como sabe você disso?

- Porque a assassina está nesta casa, e mo contou no seu último suspiro - volveu a mulher, encarando-a com seriedade total. – O nome dela é…era…Gwen. Gwen Dovry.

De repente a mesa parecia mais estreita, e o rosto da outra encontrava-se mais próximo do seu que a distância com que Mena se sentia confortável.

- A Gwen era uma passante, tal como tu – prosseguiu Ni, como se não tivesse há instantes admitido que a passante da qual falava degolara quase vinte pessoas na noite anterior. – Ela era…admirável. Capaz. Sem medo e cheia de mais compaixão do que os que a rodeavam mereciam receber. E ainda assim, não restam dúvidas de que ela foi até ao palácio e pintou as paredes de vermelho, antes de virar a faca contra si mesma. Não te parece que há aqui uma discrepância grave? O que pensas que a poderia ter levado a agir assim? O que no mundo poderia ter levado alguém a agir assim?

Mena ficou feliz por essas serem perguntas retóricas. Ela não estava em posição de replicar numa voz que não soasse ou aguda ou esganiçada de medo.

- Esta deveria ter sido uma missão simples. Entrar, passar uma mensagem, sair de mansinho e reunir connosco para nos levar para cima. – Era como se Ni falasse mais para si do que para ela, mas Mena não era capaz de se fazer ignorá-la. – Não podíamos ter adivinhado. Como é que poderíamos ter adivinhado que a criança…

- Mã! – Uma figura diminuta entrou na cozinha a correr, levando Mena a soltar um fundo suspiro de alívio. Ni viu-se momentaneamente distraída, e com razão. O colo desta estava a ser tomado de assalto por um redemoinho de cinzento, laranja e amarelo. - O ti Frix e a ti Val tão a gritar um com outro, outra vez!

- Agora não, Deion. A mamã está ocupada. – Deion devia ter dois ou três anos, observou Mena. Não mais de quatro. Um ninho de cabelo loiro tapava-lhe os olhos e caía em redor da sua cabeça, de um modo que dificultava a tirada de conclusões de se o rapazinho se encontrava virado para trás ou para a frente. – Vai brincar no andar de cima, sim?

- Mas eles tão a partir todos os vasos da ti Sidra, e a chamar por ti – insistiu ele.

Ni virou-se para Mena.

- Dá-me licença por um instante – disse, e saiu da cozinha em passos largos, deixando Mena a sós com Deion. Deion, que não teve meias medidas em instalar-se na cadeira que a sua mãe abandonara, e tirou uma caixa quadrada do bolso das calças. A jovem observou-o, combatendo o instinto irracional que lhe dizia que o rapazinho estava ali como guarda, e deu um pulo de meio metro quando a caixa que ele segurava começou a piscar e a emitir uma série de bleeps e blips.

- Ó! Nível dez! – Mena quase caiu da cadeira na pressa de se afastar, até recordar quem era a adulta ali.

- E o que, em nome dos quatroucinco deuses, significa “nível dez”? – atirou-lhe.

O menino atirou-lhe de volta um olhar bem indicativo de que a julgava retardada.

- Quer dizer que já matei um montão de etateretes. Duh! – disse, e sacudiu a cabeça, como se lamentasse que ela não fosse capaz de entender um facto tão simples. – A ti Gwen trouxe-me de lá de cima da outra vez.

- Lá de cima?

- Huhu. O mundo-coiso lá de cima. Eles têm um montão disto lá. – O sorriso feliz dele contrastava de modo gritante com o conteúdo do que dizia. Mena segurou-se à borda da mesa com ambas as mãos, para se impedir de deslizar para fora da cadeira.

- Isso é um artefacto do Mundo de Cima, que a tua tia Gwen te trouxe. – A sua mente deteve-se à vez em cada um dos conteúdos perturbadores daquela frase. Não estavam nas Terras Selvagens ou em Ponto Central, onde se cuspia abertamente no tratado de Miora. Em Drava as proibições eram tidas em alta conta. Ser apanhado com material fabricado noutro mundo era um crime punido com meses no cárcere. Ni dera ao seu filho, novo demais para ter noção das coisas, um brinquedo nada inconspícuo quanto à sua natureza. Se era que se tratava realmente de um brinquedo.

Mena pensou na metradora, e estremeceu.

- A mãe diz ca ti Gwen já não traz nada a partir de hoje, e que já não dá para falar com ela. Os meus outros tis são etúpidos. O ti Fri só chora quando pensa que não tá ninguém a ver, e a ti Val só grita e parte coisas e a vó Sidra é velha e cheira mal. – Deion parou, como se o esforço de falar o tivesse deixado sem fôlego, e aproveitou para a estudar atentamente. A jovem sentia-se horrorizada demais para o mandar parar de a fitar com olhos de peixe morto. – O meu papi tá lá em cima. No mundo-coiso. Tu vais trazer-me pra ele?

- Eu…- Mena calou-se ao escutar vozes vindas do corredor. Uma delas pertencia a Ni, mas esta era perto de inaudível ao lado das outras duas, que discutiam em altos berros.

- …e essa coisa matou a Gwen, lembras-te dela? A tal Gwen sobre a qual andas a salivar desde há vinte e tal anos para cá? O que vocês estão a fazer é uma estupidez, e eu não quero, repito, não quero tomar parte nisto!

- Mulher, faz me um favor! Nós votámos, tu perdeste, engole a derrota. Fim de assunto.

- Calem. A. Boca. Os. Dois. – Ni foi a primeira a entrar. Mena detectou a mudança que se deu nas linhas da sua face mal a mulher a encarou. Elas deixaram de se contorcer, para irem suavizar numa expressão animada que Mena imediatamente identificou como sendo inteiramente falsa. – Mneme, estes são Frisko de Arcada e Valerie Trimade. Frix, Val, a Mneme.

Mena murmurou uma saudação da qual o par não fez muito caso. A primeira coisa que a rapariga pensou de Val foi que esta era enorme, para cima mais do que para os lados. Mal-humorada foi a segunda, se esta estar a franzir a testa tão intensamente que uma monocelha se formara servia de indicação. Frix, notou Mena, era moreno e alto também, embora não tanto. Na sua mão balançava uma cesta coberta por um pano, que ele se esforçava por manter o mais longe do corpo que o braço lhe permitia.

- És tu a boleia? – A pergunta brusca trouxe-a de regresso à realidade, e Mena percebeu que Val estava a estudá-la. Ela fitou-a, sem entender, o que fez a mulher pressionar os lábios com firmeza. – Ah. A Ni ainda não te explicou?

- Ia chegar a essa parte quando fui chamada para resolver a vossa briga infantil – atalhou esta, abrindo a mão e colocando uma esfera de vidro sobre a mesa. A esfera, mais ou menos do tamanho de um berlinde, rolou até Mena e imobilizou-se em frente dela. A rapariga reconheceu o objecto de imediato. – Parto do princípio que sabes o que isto é.

Mena, coincidência das coincidências, sabia.

- Esfera-de-salto. São usadas para passar para o Mundo de Cima. Muito perigosas. Muito ilegais. – A ênfase cuidadosa que derramou sobre “ilegais” não recebeu a reacção embaraçada ou culpada com que contara. Ni parecia até divertida, apesar de Mena desconfiar que o divertimento era fingido para benefício de Deion, que continuava entretido com a sua caixa barulhenta. – Novamente, são perigosas. Instáveis. O que quer que seja que pretendem fazer no Mundo de Cima, asseguro-vos de que não vale o risco.

- Só são perigosas quando colocadas nas mãos de amadores, Mneme. Sossega. Val e Frix fizeram isto trezentas centenas de vezes com a Gwen, e problemas nunca houve.

A jovem respirou bem fundo. “Eu sou uma amadora!”, desejava ela gritar. “Eu sou uma amadora, e procurarem usar uma assassina como garantia de segurança não me sossega nem convence do vosso ponto de vista.”. Os seus superiores não podiam ter aprovado aquilo, podiam? Decerto que o grupo mentira sobre os seus intentos quando lhes pedira que enviassem alguém, pois Mena não via um plano tão risível a receber a cooperação e aprovação dos Servidores da Causa.

- Todavia, continuam a ser ilegais – disse, firmemente. Chamassem-lhe falha de personalidade, mas Mena preferia não se envolver em complicações cujos desenlaces incluíssem a possibilidade, por menor que esta fosse, de ir acabar morta ou numa cela. – Lamento se isso vos causar inconveniência, mas caso sejam incapazes de me fornecer uma razão satisfatória para arriscar a minha segurança e liberdade, peço que me mostrem a porta. – Ao lado dela, Val sacudiu a cabeça. Uma medida de pânico apoderou-se da jovem. – Não contarei a ninguém o que vi e ouvi. Têm a minha palavra.

- Uma palavra a ser tida em conta, com toda a certeza – Frix sorriu para ela. Ou Mena assumia que sorrir fora a sua intenção. O que o homem conseguiu expressar não passou do esboço de uma careta semi-dolorida. - E o teu silêncio será apreciado. O nosso grupo não é o que se possa chamar obcecado com secretismo, mas será uma bênção se nada do que acontecer aqui dentro se espalhar. Quanto a razões satisfatórias…

- Não! – exclamou Val. A mulher gigante moveu-se com uma rapidez que deixou os olhos de Mena húmidos. De alguma forma, Frix conseguiu antecipar-se-lhe, e retirou o pano que cobria a cesta com a sua mão livre, deixando à vista o que esta continha. – Ela não precisava de ver, seu cretino. Que parte do “quanto menos souberem, melhor” te escap…

- Mneme, considerarias isto suficientemente satisfatório? – perguntou Frix, prestando pouca ou nenhuma atenção a Val. Mena não respondeu. As palavras tinham-lhe secado.

No tempo em que ela ainda era Mena para outras pessoas que não ela própria, Mena segurara em bebés de tias e primas, tias e primas mortas agora, tal como as suas crianças. Esses bebés tinham sido rosados e saudáveis. Mesmo que a crueldade da natureza lhes tivesse conferido caras cujos traços estariam melhor enquadrados no traseiro de um jumento, continuavam a ser rosados e saudáveis e, na generalidade, amorosos como alguma lei não escrita ditava que bebés deviam ser.

O bebé no cesto não era amoroso. Entre trapos amachucados havia um corpinho enfezado e minúsculo, com a pele de um tom entre o azul-claro e o arroxeado, despojado de quaisquer marcas que lhe conferissem fofura e encanto. A visão lembrava Mena da única vez que vira um infante morto. Este nascera prematuro, e tivera o destino de todos os prematuros nascidos num mundo onde incubadoras eram um sonho ainda nem sonhado. O bebé no cesto partilhava muitas similaridades com o bebé nessa memória, diferindo só num pormenor crucial: estava vivo, e os seus olhos, pretos de lado a lado, focavam-se nela como se lhe procurassem tirar o retrato.

- Isso é aquilo que eu estou a pensar que é? – inquiriu Mena, num fio de voz. Várias cabeças anuíram, a de Val com relutância. – Ma…mas…eles deviam… essas criaturas não deviam estar presas em Hoza e impedidas de sair?!

- A maioria delas está. Esta não – disse Ni. A rapariga levou a mão ao coração e olhou para baixo, para a esfera-de-salto sobre o tampo da mesa, para evitar cruzar a vista com o cesto. Aquilo que Ni lhe estivera a dizer voltou em força à frente da sua mente, junto com uma nova e perturbadora revelação: o que no mundo poderia impelir uma mulher dita boa e decente a matar e a matar-se de seguida?

Uma criatura como aquela dentro do cesto, só para começar.

- O que tencionam fazer dela? – exigiu saber, sentindo orgulho por apesar de ir a meio de um ataque de nervos, as suas cordas vocais funcionarem sem impedimentos. – Não podem deixar uma coisa dessas à solta. Deviam afogá-la, queimá-la, enterrá-la ou…

- Eu disse-lhes precisamente o mesmo – interrompeu Val. Pela primeira vez, a mulher parecia encarar a jovem com algo próximo de apreciação. Mena não estava certa de como se sentia em relação a isso. – …se bem que as minhas sugestões incluíssem meio quilo de explosivos, uma serra eléctrica e uma picadora. – Mena deixou pendente o que ia dizer pelo tempo de lhe deitar um olhar interrogativo, e pensar no que viria a ser uma serra ilética. – Recusaram, mas vão ver. Vão dar-me razão um dia.

- Val, menos! – Ni foi até ela, com uma mão levantada e a cara cheia de um ar tão feroz, que Mena recuou com a cadeira apesar de não ser o alvo da zanga. – Eu posso tolerar qualquer barbaridade que digas, mas em frente do meu filho, irás ter tento na língua e não falar em assuntos que o perturbem. Queres marcá-lo para a vida?

Como girassóis envasados em busca de uma janela, quatro cabeças viraram-se para Deion, que continuava ocupado com a sua caixa cinzenta, completamente imerso no que quer que estivesse a fazer com ela, sem ligar a nada e sem dar sinais de que marcas indeléveis se encontrassem a ser sofridas. Mena invejou a sua capacidade de abstracção.

- Para responder à tua pergunta, Mneme, aquilo que tencionámos fazer da criança – Ni sublinhou “criança” de uma forma que era indubitavelmente dirigida a Val, que bufou como um gato furioso – é o motivo pelo qual te chamamos. A Gwen era a nossa única passante, e é imperativo que a criança seja levada daqui o mais depressa possível. Já deixaste claro que tens problemas com a questionável legalidade de passar para o Mundo de Cima, mas entendes o porquê de ser necessário abrir uma excepção neste caso?

Mena moveu a cabeça, nem afirmativa nem negativamente. Ela pensava.

Era conhecimento comum que humanos não eram os únicos animais racionais no continente. Ela recordava-se de olhar o céu quando mais jovem, e ver bandos de Agar voar junto das nuvens mais altas, enquanto a Mena-menina mordia o lábio e torcia para que não lhes ocorresse pousar. Aqueles cruzamentos entre homem e galinha não estavam sós dentro da categoria de seres que não sendo humanos, revelavam perturbadoras tendências para pensar como eles. Havia ainda a assim chamada Gente, nome colectivo dos predadores semelhantes a grandes gatos que ocasionalmente rondavam as fronteiras das Terras Selvagens em busca de caça. Se ela não o acreditasse blasfémia, podia até incluir o povo dos elementos na sua contagem. E além deles, havia o povo de Hoza.

O povo dos elementos era reverenciado. Os Agar e a Gente eram tolerados enquanto existissem meios para os abater se saíssem do controlo. Mas o povo de Hoza, os assim chamados fragmentados, eram mais espírito que carne. Se um deles possuía um rosto que pudesse ser esmurrado, era quase certo que o roubara a alguém. Feri-los era fútil, destruí-los impossível. E aquele ali, o fragmentado deitado no cesto que vestia a carne de uma bebé, vira-a, vira-a como se a memorizasse.

Mena não duvidava que se virasse as costas e desse início à caminhada de regresso a casa, a criatura se lembraria do seu rosto.

- Eu entendo – disse a jovem. Olhos pretos de lado a lado encontraram os seus. Como conseguia a criatura ver, com eles assim? – Se não desejam atirá-la para o fundo do oceano numa caixa com lastro, mandem-na para longe. Eu ajudarei. Apenas…porquê o Mundo de Cima? Porque não Hoza? – Mandarem-na para onde o resto dos seus se encontrava era um destino mais razoável para dar àquilo do que levá-la para um mundo de onde era possível regressar. Nenhum fragmentado saíra de Hoza em cinco séculos, até onde Mena sabia. – O pacto fez-se para situações destas. Dêem-lhe uso!

- O pacto – disse Frix – depende única e exclusivamente da crença dos fragmentados na santidade de uma promessa. Mais exactamente, a promessa de não abandonarem a terra que lhes foi dada. Mas ninguém pode fazer uma promessa por outrem, e esta cria…nça não fez promessa alguma. Podemos atirá-la para lá da fronteira e esquecer o assunto, mas que garantias há de que lá ficará, quando crescer e entender que aquilo que prende os restantes não se aplica a ela?

E que garantias existiam de que ficaria no Mundo de Cima? Mena admitia que regressar de lá apresentava maiores obstáculos do que cruzar uma fronteira, mas a possibilidade existia. Quase sem a deixarem tomar consciência disso, os seus dedos fecharam-se em volta da esfera-de-salto.

- Façam-na prometer, então. - Mena sentiu o vidro em contacto com a sua palma, frio, frio, quase tão frio como a risada que Val soltou ao ouvi-la. – Tem de existir uma maneira.

- Tenho curiosidade em saber que maneira seria essa, de arrancar uma promessa a quem não sabe falar. O que aqui temos não é uma criatura centenária, com conhecimento correspondente à idade, que escolheu apoderar-se do corpo de um recém-nascido para espalhar destruição. Este ser nasceu ontem. – Mas que uma montanha caísse em cima de Mena se a criatura tinha conhecimento correspondente a essa idade. Os seus olhos eram sabedores demais. Antinaturais. E ou os olhos a enganavam, ou um sorriso cínico acabava de correr pelos seus lábios finos e azul-arroxeados.

Se existia uma só pessoa naquela sala – com excepção de Deion, a quem o assunto todo não podia interessar menos – que acreditasse sinceramente ser uma criança o que ali tinham, que os deuses, quaisquer deuses, a fulminassem com um raio.

- Não a podem deixar à solta – sussurrou, menos exaltada mas ainda preocupada.

- Oh, não iremos – disse Ni. - Ela será vigiada. A Val irá assegurar que a desgraça de ontem não se repetirá. E qual de nós pode afirmar conhecer o caminho do Destino, e assegurar que algo de bom não nascerá de tudo isto? Nem todos os fragmentados são os monstros que dizem as lendas. Esta criança terá a eternidade para se redimir daquilo que fez. – A mão da mulher segurava uma faquinha de prata, que não estivera a segurar há um instante atrás. Ela fitava-a com olhos que queimavam, ao mesmo tempo que levantava o braço. – A porta ainda está aberta para ti, mas nós precisámos de ter isto feito ainda esta noite. Escolhe.

Mena acenou. Sem palavras, ela estendeu-lhe a sua palma aberta.



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A Casa Rayner-Cassimir não era um orfanato, mas assemelhava-se. Não era um mau lugar, embora a sua pintura pudesse fazer alguns pensar em vómito e doenças infecciosas. E Jean Jacques Sagani não era um mau homem, embora estar onde ele estava, a fazer o que ele estava a fazer, fosse tecnicamente contra as regras. Jean Jacques estava convencido de que o patrão entenderia. Afinal, ele fizera uma promessa. Fragmentados respeitavam promessas, e não eram os únicos a dar-lhes valor. Se ele não desse, estaria longe, com a sua mulher e filho.

Também não era como se o patrão o pudesse despedir. Jean Jacques era valioso, por ser um dos raros mágicos tolerantes o suficiente para trabalhar para um não-humano, e lado a lado com não-humanos. Não que fazê-lo fosse um esforço. O patrão era razoavelmente decente, para uma criatura das trevas, e para alguém cujo povo possuía delírios de divindade, Frix não tinha a cabeça tão inchada assim, provavelmente porque Val lha espremera vezes demais.

Val era uma mágica, tal como ele, a sua esposa, e o seu cinco vezes amaldiçoado sogro. Os outros quatro membros daquela irmandade mista, do grupo de Clay, eram reservados quanto à sua raça e habilidades. Gwen era uma passante, e possivelmente mais algumas coisas que Jean Jacques nunca pensara indagar. Sidra talvez fosse humana. Jade era…complicado. Jean Jacques confirmara que o homem era um hipnotizador, mas tal como Gwen, era possível que fosse mais. Em certa ocasião, ele perguntara-lhe se por detrás dos óculos escuros, os olhos dele eram negros de um lado ao outro. O silêncio com o qual Jade lhe respondera deixara-o de cabelos em pé.

E depois havia Hilde. Jean Jacques nem suspeitava o que Hilde Rayner era, mas ela estava à sua espera nos degraus, com um molho de cobertores nos braços. Hilde era loira, com uma face pálida como uma caveira, descarnada como uma caveira, e de lábios permanentemente torcidos num sorriso forçado, como uma caveira. Mesmo quando era evidente que esta desejava nada mais que gritar com a pessoa a quem se dirigia, a boca de Hilde tinha os cantos virados para cima.

- O que tu estás a fazer é errado – foi a primeira coisa que a mulher lhe disse, mal o viu aproximar-se. – O que nós estamos a fazer é errado. O lugar dele é na Escola.

Jean Jacques evitou um estremecimento. Não.

- O pai do miúdo – disse ele, e a criança que segurava ao colo, envolta num pano, agitou-se e fez um barulhinho, como se soubesse que estava a ser tema de conversa – fez questão de me deixar claro que a Escola é o último lugar onde deseja que o seu filho cresça.

- O pai do miúdo – volveu a mulher – é um tratante desprezível.

- Ainda assim, devemos honrar a sua vontade. E neste lugar… uma criança a mais, uma a menos, que diferença faz? Toma. – Ele passou-lhe o embrulho de bebé. O fedelho permanecera adormecido e calado durante a viagem, uma bênção para Jean Jacques. Lidar com crianças que choravam era uma tarefa que habitualmente delegava para Ni, a quem Deion tornara profissional em calar cornetas. Hilde pegou-lhe, com os gestos seguros de alguém acostumado a embalar crianças, e o foco desta foi imediatamente para o rosto do bebé.

Ele ouviu-a suster a respiração.

- Ele não tem os olhos – sussurrou ela. Jean Jacques anuiu, sem lhe levar a mal que se espantasse. Inconscientemente, também ele esperara olhos pretos que eram só pupila, mas os que estavam fixos nele, ou no ar ao lado dele, só detinham a neblina azulada característica dos olhos de recém-nascidos. Esta dissipar-se-ia dentro de algum tempo, para dar lugar a castanho, ou verde, ou o que quer que fosse, contando que não preto. Agora que ficara confirmado que a criança era humana, pelo menos presentemente, o sorriso que Hilde exibia tornara-se mais genuíno. Distraidamente, ela acariciou a cabeça do bebé. – Magia?

O homem tornou a acenar.

- Uma magia genérica, e só temporária. Será preciso algo mais forte para impedir que o poder dele se active, mas não queria fazê-lo durante a viagem. Se vou interferir com a ordem natural, irei fazê-lo em repouso, e com uma chávena de café ao meu lado. – Hilde acenou, mas Jean Jacques suspeitava que ela não ouvira uma palavra que fosse. A mulher estava a embalar a criança. Mais perturbador que isso, a boca desta produzia barulhinhos chilreantes e “Ooo, ooo”s, enquanto o seu dedo se movia em frente da carinha minúscula. Era uma mercê que a criança não fosse ainda um fragmentado, e que nela não existisse traço da aterradora e precoce inteligência que caracterizava aqueles que nasciam com o poder activado. Se ele estivesse consciente do que se passava em seu redor, e dos ruídos que estavam a ser produzidos à conta dele, o miúdo teria morrido de embaraço. Jean Jacques estalou os dedos. – Hilde? Eu não disponho da noite inteira, e amanhã de manhã terei de confrontar o patrão com esta coisa toda. Cafeína seria apreciada.

- Cafeína é veneno – sentenciou ela. – Mas tenho chá de tília.

- Menos que perfeito, mas serve. – A mulher esticou o dedo para lhe indicar que a seguisse, e Jean Jacques assim fez. – Sabes o que tens a fazer…depois? – Hilde anuiu.

- Ensinar-lhe moral. Modos. Respeito pela vida humana. Sim, eu sei – disse ela, curtamente. Nos seus braços, a criança agitou-se. – Como se chama ele?

- Eh?

- O bebé. Decerto que o seu pai, ou a sua mãe, o nomeou antes de to entregar. É evidente que teremos de o adaptar, se for estranho demais. Algo como “Gorgofon” não lhe servirá neste mundo, por exemplo. Mas ele precisa que lhe chamem algo. O contrário seria…errado.

Jean Jacques franziu a testa. Ele ignorava o que era feito da mãe do miúdo, e supunha ser preferível continuar ignorante. Quando lho entregara, junto com a intimação de que o manteriam seguro e humano, ou consequências seriam sofridas, o pai não manifestara uma opinião sobre o assunto, e nomes de família encontravam-se fora de questão. Improviso seria.

- Tim – disse ele, do topo da sua cabeça. Quando Ni se encontrara de esperanças, a luta estivera renhida entre esse nome e aquele que Deion acabara por receber. Foi o primeiro que lhe ocorreu, e uma vez fora dos seus lábios, Jean Jacques sentiu que era certo. – É esse o nome dele.
- Tim.

- Sim.

- Tim de Runa. Tim Runa. Tim, o fragmentado. - A mulher cobriu a boca com a mão.

- Bem, é óbvio que teremos de lhe alterar o sobrenome também. Qual é a piada?

- Nada, homem. - Hilde ajeitou o cobertor em redor do bebé. Tim. Ela podia trabalhar com isso. Ela podia definitivamente trabalhar com isso. - Mas o sobrenome, serei eu a escolhê-lo.


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Era noite, em cima e em baixo.

- Não, escuta de uma vez, minha querida Ni. Se a rapariga se perdeu na viagem, há pouco que pode ser feito. Pouco que eu posso fazer. – Hector Clay olhou para o telemóvel que segurava, com um misto de fúria e frustração. Do outro lado, a mulher continuava a falar numa linha firme, imperturbada pela perturbação que estava a causar no seu estado de espírito. Fora dele a iniciativa de permitir que os seus funcionários se lhe dirigissem de igual para igual, e se os frutos que colhia eram amargos, ele merecia-os. Mas isso não impediu Clay de, com um ligeiro elevar de voz, responder sarcasticamente ao último argumento da sua interlocutora.

-…não, eu não me posso simplesmente aventurar no limbo entre mundos e resgatá-la. Penso ter sido claro ao dizer que é um tanto ou quanto difícil encontrar um ser humano dentro de um espaço com proporções infinitas. Se lhe disseram para não largar e ela largou…não, não estou a dizer que ela o mereceu, ou que não é lamentável, apenas que não há remédio. – A chamada caiu. E no exacto momento em que isso aconteceu, o ecrã iluminou-se para indicar a recepção de uma mensagem.

Clay não reconheceu o número. “Encontra-me na fronteira, AGORA”, dizia a mensagem, o que não era altamente revelador, mas a convocatória era secundada com “seu filho de cadela perjuro”, e havia, num mundo ou no outro, apenas uma pessoa desprendida o suficiente para casualmente lhe dirigir um insulto de tamanha gravidade. Seria de esperar que quase cinco séculos de clausura fossem fazer diferença nele. Se a mensagem servia de indicativo, esse não era o caso.

Clay destrancou a porta e saiu para o corredor. As luzes estavam apagadas no resto da casa, e Julian dormia no berço no andar de cima. Andrea já devia ter-se ido deitar, também. O seu filho e a sua mulher não tinham preocupações que os mantivessem de pé na calada da noite, e que ele as tivesse fazia-o sentir-se cansado, e muito, muito velho.

A parte da velhice não era estranha nem digna de espanto. Clay estava prestes a entrar no seu trigésimo segundo século de vida. Havia colinas e nações que eram crianças nos seus olhos. Mas o cansaço era algo que precisava de afastar, sobretudo agora que - ele deitou um olhar de relance ao ecrã, e apesar de tudo, conseguiu sorrir ligeiramente. Certas coisas nunca mudavam. - “Elmer” reaparecera. Clay esperara pelo seu contacto. Durante quase quinhentos anos, ele não estivera seguro de que este algum dia viria, mas isso não o impedira de tomar medidas preventivas. E há seis anos atrás, ele soubera…

“AGORA, hm?” - pensou Clay, e acendeu a luz da sala, e pegou numa caneta, e pegou também num livro de palavras-cruzadas, e sentou-se. Ele esperara séculos. Um facto, não um exagero.

O seu velho rival podia esperar até ele descobrir um obscuro sinónimo para artifício.

#################


De um lado e do outro do limbo, em baixo e em cima, gente morria e gente vivia, e guerras grandes e pequenas eram travadas. No limbo em si, alguém perdera-se, e era isso que as pessoas paradas na berma da estrada discutiam. Duas delas faziam-no, em todo o caso. A terceira procurava sossegar um menino loiro, a quem o pavor dos carros fazia berrar a plenos pulmões. Um dos que discutiam segurava num cesto, e resmungava que tinham arranjado uma treta de uma passante, isso sim, mas que ao menos a rapariga os deixara relativamente perto do destino. Tanto o seu adversário como a mulher que se mantivera à margem da altercação foram unânimes em replicar “Val, cala a boca!”, o que a levou a acrescentar que claro, continuava a ser lamentável, e uma perda tremenda, e que a desgraçada rapariga descansasse em paz. O assunto ficou por ali.

E dentro do cesto, a bebé de olhos negros deliberava. Dois caminhos abriram-se à sua frente, demarcados por um rasto de fios luminosos. Um conduzia ao camião que naquele momento passava junto deles, a uma derrapagem, e a um futuro no qual os seus guardiões eram massas de carne cobertas por marcas de pneus. Ela deliberou, e as vozes na sua cabeça, vozes, mais vozes do que a mente de um adulto deveria conter, o dobro das vozes que a mente de um recém-nascido deveria conter, sussurraram “Não”. E a bebé, servindo-se de traços de memórias que não eram suas, reunindo pensamentos que ainda não vivera o suficiente para pensar, replicou, mentalmente e com glacial clareza, “Vocês não estão no controlo. Eu estou!”. Mas o tempo de agir passara, e um dos rastos luminosos desaparecera. Pela primeira vez na vida, a bebé experimentou decepção.

No futuro que seria, o camião continuou a andar.



Última edição por Moggo em Dom Fev 19, 2012 3:32 pm, editado 4 vez(es)
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MensagemAssunto: Re: Passagem   Sex Jan 27, 2012 5:48 pm

Não percebo porque não, mas oh well. E sim, tinhas razão, isto fica meio confuso porque atiras imensa informação ao leitor de uma só vez; mas acho que não podia ser feito de outra maneira, porque para a Mena, nenhum destes factos ou criaturas é desconhecido. Adoro algumas das expressões que ela usa, btw. Tipo "quatroucinco", divinal xD
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MensagemAssunto: Re: Passagem   Dom Jan 29, 2012 8:44 am

Obrigada. Dosear a informação é um dos meus maiores problemas quando estou a escrever do ponto de vista de alguém que sabe muitas coisas que são desconhecidas ao leitor. Ter as personagens a contar umas às outras coisas que elas próprias já devem saber seria menos confuso, mas...eh, ficaria feio. Estou a escrever isto muito devagar, por estar a meio de meia dúzia de outras histórias que levam precedência sobre esta, pelo que futuros esclarecimentos e actualizações irão tardar. Mas se tiveres alguma dúvida sobre a história até agora, ou quiseres mais explicações, manda vir. Estou aqui para isso.

(Pergunto-me se deverei dar um resumo a esta coisa...)
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MensagemAssunto: Re: Passagem   Seg Jan 30, 2012 1:17 pm

Wow.
Acabei agora de ler no teu blog.

Isto está fantastico! Imenso mistério e seres e poderes estranhos. Gosto ^^
Já sabes que gosto da tua maneira de escrever, por isso não me vou alongar muito nisso, mas gostei particularmente no principio de referires graus e depois dizeres que eles não sabiam o que graus eram.

Quanto a personagens, ainda não tenho uma ideia muito definida delas, mas gostei do Clay xD

Só para ter a certeza disto, no principio foi simplesmente um vulcão, ou há algo mais misterioso á volta do acontecimento?

Bem, fiquei com curiosidade em saber mais, por isso continua ^^
E não te preocupes, eu não me esqueci de Coração de Relógio, só que andei a ler Vampire Diaries e Inheritance e a fazer umas coisas e ainda não tive tempo para passar por lá, porque já sei que vou ter de passar dias a ler para conseguir chegar até á ultima actualização.
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MensagemAssunto: Re: Passagem   Seg Jan 30, 2012 9:31 pm

Ei, sem pressas. Eu também não tenho escrito muito de CdR desde que terminei a segunda parte, por motivos semelhantes àqueles que tu tens para não a teres andado a ler. (Excepto que as minhas leituras têm consistido em blocos de apontamentos e livros de estudo.) Que não tenha havido tanto feedback ultimamente faz-me sentir menos culpada por estar a demorar em actualizar.

Isto (Passagem) vai provavelmente ser a coisa mais complicada que já escrevi na vida, e ainda mais complicada de ler para qualquer pessoa que não eu. Não em pequena medida porque irão haver muitas, muitas, muitas personagens e diferentes pontos de vista, e terei de andar constantemente a saltitar de cabeça para cabeça. Basta dizer, este projecto de história tem sete protagonistas. Daí que vá andar em lume brando, não só porque tenho outras coisas para terminar, mas porque se o quiser fazer bem, terei de o fazer com calma.

Tudo no prólogo e Capítulo I será importante mais para a frente, mas a explosão não o será nem mais nem menos que o resto. Não se trata de um acontecimento que mereça muita fixação, em todo o caso.

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MensagemAssunto: Re: Passagem   Seg Jan 30, 2012 9:52 pm


Capítulo II



Preto, branco, violeta. E luz.

Ni dissera-lhe, depois de fazer um corte superficial na sua palma, existirem três regras que cumpridas, asseguravam que quem passava para outro mundo vivia para voltar. Não entrar em pânico era a primeira.

Mena seguira-a à risca. Pouco era esperado dela além de sangrar e não estragar as coisas. Quatro passariam com ela – Val, Frix, Ni e Deion – e cabia a eles a parte difícil, a de determinar o destino. Com todas as emoções que de outro modo a teriam feito gritar firmemente sob controlo, Mena vira Ni partir ao meio a esfera-de-salto, que se quebrou como a casca de um ovo. Líquido escorrera de dentro dela, formando uma mancha de um azul-prateado sobre o vermelho da sua palma. “Cores bonitas”, pensara a jovem, quando azul e vermelho se juntaram e fizeram faíscas.

A segunda regra era não quebrar a corrente. Frix dera a sua mão esquerda a ela e a mão direita a Val, que segurara na de Ni, que segurara na de Deion. Ni não lhe dissera qual a terceira regra, mas não era necessário que ela o fizesse. Quem sabia sobre o mundo acima do continente, sobre passantes e passagens e esferas, sabia que não fechar os olhos quando se passava pelo limbo entre mundos era receita para a perdição.

Mena fora bem-sucedida a cumprir ambas as três, até ao momento em que o seu braço pegara fogo. Aí ela gritara, tomada de um pânico que gritos não bastavam para expressar, e abrira os olhos, e largara a mão de Frix como se esta a queimasse também. Largara-a, e largando-a caiu em preto e branco e violeta, cores que lhe atacaram a visão enquanto a sua queda durou. Da sua perspectiva, a queda durou uma eternidade. A rapariga gritou durante toda ela, e quando voltou a si, a sua voz gastara-se e a sua garganta ardia.

O local onde Mena voltou a si era um prado sob céu estrelado. Ela sentiu erva picar-lhe o pescoço e tocou-lhe com as pontas dos dedos. Erva era uma boa coisa. Concreta, e portanto diferente do vazio e das cores do qual saíra. A sua mão doía, mas não havia sinal de fogo nem na sua manga nem no seu braço. A queimadura não passara de uma ilusão.

Quando a sua respiração acalmou, Mena esfregou na saia do vestido a palma pegajosa de sangue, e encostou ao chão aquela que não levara corte. A que fora cortada seguiu-se. A rapariga ignorou a dor ao pressioná-las a ambas no solo, usando-as como apoio para se colocar de pé. Fê-lo depressa demais, o que lhe valeu uns instantes de desorientação e uma quase nova queda, mas quando tempo passou sem que ela desse consigo no chão, Mena atreveu-se enfim a dar um par de passos e a averiguar onde estava.

Nem Frix, nem Val, nem Ni nem Deion, encontravam-se onde os pudesse ver. Quando a garganta lhe deixou de doer, chamou-os durante horas, até se resignar ao facto de que a haviam abandonado. Sem outra alternativa que não envolvesse ficar onde estava e criar raízes, Mena andou até amanhecer. Ela não estava no Mundo de Cima. Isso, ao menos, era certo. O Mundo de Cima era um mundo de aço e betão, com prédios cúbicos que cobriam a terra até onde a vista alcançava, lembrando as cidades cinzentas das Terras Selvagens. Ela vira retratos.

O sítio onde estava era um de planícies verdejantes e relevos suaves, com uma estrada para gado que ia a direito até um bosque e um aglomerado de colinas. Estava algures no sul, diziam-lhe as árvores e arbustos que encontrava semeadas aqui e ali. Não o teria notado a partir do clima, pois choveu torrencialmente no seu primeiro dia de caminhada, e mais ainda no dia seguinte, mas a espécie de freixo que ali crescia era uma introduzida há séculos por colonos do Mundo de Cima, que nunca se tinham deslocado para lá de Eriz. Significando que ela se encontrava numa das facções abaixo de Eriz; Corsize, Lavrene, Pallei, ou - e depois daquilo por que passara, a noção não arrepiou Mena tanto assim – Runa.

Mena alternou a sua viagem entre seguir pelas estradas e tomar atalhos através das ervas altas das planícies. Na estrada, não encontrou vivalma. Nas planícies encontrou pequenos roedores que matou e comeu crus, e silveiras nas quais em certas ocasiões caiu e se enredou.

Dias mais tarde, ela encontrou a aldeia de Vren. Não havia residência dos Servidores em Vren, mas Mena conseguiu alojamento para uma noite só e foi aconselhada a dirigir-se a Faris, uma povoação da qual não estava longe. Em Vren, Mena recebeu os primeiros indícios de que, onde quer que tivesse estado desde que pressionara a esfera-de-salto na sua palma, permanecera lá mais tempo do que julgara inicialmente. Ela estivera em Krende no início da primavera, a meio da guerra. Em Vren era meio do Verão, e a guerra terminara.

Nos dois dias que passou na aldeia, Mena ouviu catorze histórias diferentes de como Serge viera a cair, sem que duas delas fossem idênticas. A rapariga suspeitava que caso se deixasse ficar por mais tempo, viria a acrescentar mais algumas ao seu reportório, mas a pressa impedia-a de se dar a esse luxo. De qualquer forma, o que escutou era suficientemente informativo. Entre outras coisas, informou-a de que guerra terminada ou não, o mundo continuava estúpido.

Runa inteira virara-se contra os seus governantes, diziam alguns. Mena dizia “Bah!”, pois ninguém devia mais a Serge, ou ganhara mais com a guerra, que os runianos. Adren, invejoso do sucesso do filho, ordenara a sua morte. Improvável, mas quem era ela para contrariar as vozes da prole? Serge, farto de esperar pela corrente de Senhor de Runa, apressara a ordem natural das coisas no que ao seu pai dizia respeito. Mais provável, mas não explicava o que sucedera com o próprio Serge. Kale fartara-se ambos, pai e irmão, e mandara a sua esposa envenená-los. Oh, essa fora uma interessante, e Mena não conseguiria segurar a língua quando lha haviam contado. Ela confidenciara ao seu ligeiramente embriagado ouvinte que sabia, de fonte segura, que Serisa falecera meses antes de a guerra chegar ao fim, e quisera saber se ele estava por acaso a sugerir que a infeliz mulher envenenara sogro e cunhado desde para lá do limbo. O outro fitara-a com os seus pequenos olhos de porco, e rira.

Mena deixara Vren no dia seguinte, numa carroça de couves cujo condutor, Ilesh, lhe dera boleia mediante promessa de pagamento. Mesmo naquelas terras ermas, a palavra de um Servidor da Causa tinha valor. Mena estava também grata pela companhia. Uma jovem sozinha, mesmo uma de pequenas posses, tinha razões para temer. Já não havia guerra, mas a sua ausência não tornava a estrada mais segura. Vren ficava afastada da civilização. Na direcção da qual Mena viera existiam mais três ou quatro aldeias, todas elas mais pequenas e remotas ainda. Para lá delas havia matos cerrados desertos de gente, e depois as terras selvagens, pelo que se entendia que o seu caminho tivesse sido solitário. Mas Faris situava-se perto de uma das grandes estradas, frequentada por salteadores até quando os tempos não estavam difíceis. Segui-la, principalmente durante a noite, era um risco, mas Mena recebeu de Ilesh a garantia fatigada de que sim, chegariam à povoação antes de escurecer demais. A rapariga sossegara.

O estranho com o saco apareceu-lhes em plena luz do dia.

- Pelos quatro, Mneme, eu juro que é assim! – Estava Ilesh a dizer-lhe momentos antes de ele surgir, a propósito da sua teoria de que Serge assassinara a esposa do irmão e que este, louco de desgosto, forçara o mágico do palácio a arrastá-la de volta para a terra dos vivos, de modo a que ambos pudessem exercer vingança. Uma situação plausível em todos os aspectos, evidentemente. Mena stava a preparar uma resposta, mas entre acabar de pensar e verbalizá-la, avistou o homem do saco. Ilesh viu-o ao mesmo tempo que ela, e puxou os arreios da mula. – Hoy, amigo! Sai do caminho.

O homem do saco não se moveu. Ele encontrava-se parado no meio da estrada, de pé, com as pernas afastadas e os braços abertos, de modo a tornar impossível contorná-lo. Ilesh assobiou e esbracejou-lhe para que se desviasse. Porém, o estranho não mexeu um cabelo até a carroça chegar perto dele, e quando esta o fez, ele vacilou e caiu de joelhos na terra. Mena ouviu Ilesh produzir um som que nunca chegou bem a ser grito. Havia sangue a sair do peito do estranho, mas nenhum buraco. O buraco que devia existir estava ocupado pela lança cuja vara floria entre as suas omoplatas, visível apenas agora que o homem não estava de frente para eles.

As suas pernas moveram-se sem o seu acordo, e antes de se aperceber de que o fizera, Mena já saltara para fora da carroça e corria para junto do ferido. Este tinha os olhos fechados e os braços cruzados em frente do peito, no sítio onde a ponta da lança apareceria caso esta o tivesse perfurado de um lado ao outro. O saco jazia abandonado no pó, e Mena verificou não sem horror que a coloração escura do seu fundo era muito provavelmente sangue seco. Impossivelmente, não havia uma gota no seu proprietário.

- Mneme, deixe-o! – exclamou Ilesh, quase incoerente de tão aterrorizado. Mena resistiu a fungar à sua atitude menos que caridosa para com o próximo. Ela ajoelhou-se em frente ao estranho, e escutou. Ninguém confundiria a respiração firme dele com um estertor de morte, o que lhe dava esperança. Talvez, levando-o para Faris…

- Mneme… – murmurou o estranho. Havia algo de melodioso em como ele pronunciava o nome, e algo de peculiar em como ele sorriu ligeiramente ao pronunciá-lo. – Mneme.

- Sim, é esse o meu nome – disse Mena. – Olhe para mim. Consegue levantar-se?

Ele obedeceu à sua ordem, e absteve-se de responder. Qualquer resposta que tivesse dado acabaria inaudível debaixo do grito que Mena soltou, fosse como fosse. Os olhos do estranho eram duas chispas de obsidiana, inseridas em órbitas tão fundas e encovadas que ela se teria podido perder nelas, se não estivesse demasiado ocupada a pôr-se em fuga.

- Mneme – repetiu o estranho, o fragmentado. E atacou.

A mão deste foi para as suas costas, de onde arrancou a lança sem que isso lhe provocasse visível desconforto. Ele atirou-a, e ela apanhou Mena na canela. O impacto, mais do que ter a ponta a romper-lhe a pele, fez a perna da rapariga ceder. Ela tombou, quase no caminho da carroça também em fuga, e apoiou-se nas mãos a tempo de ver uma das rodas saltar para fora. A lança regressara às mãos do fragmentado. Como, ela não fazia ideia, mas certo era que ele a estava a atirá-la novamente, fazendo a ir alojar-se no pescoço da mula. Uma chuva de sangue caiu sobre a estrada enquanto o animal se agitava, doido de dor e pânico, e o fragmentado se movia para arrancar Ilesh de cima da carroça antes que esta tombasse de lado. Mena só podia olhar, paralisada pela improbabilidade do que via. Ela passara uma vida inteira sem saber mais dos fragmentados que aquilo que a história e as lendas contavam, e agora deparava-se com dois, num tão curto espaço de tempo que simplesmente não se podia tratar de coincidência.

Significando que provavelmente não o era.

- Eu não lhe fiz nada! – gritou ela, aterrada, quando o fragmentado atirou o outro homem para cima do seu ombro, como se este nada pesasse, e concentrou a sua atenção nela. – Eu juro, juro pelos quatro deuses, juro pelos cinco e pelo povo dos elementos e por quem for, eu não lhe toquei, eu não sei dela, foram eles, eles obrigaram-me a partir a esfera!

O fragmentado deu um passo na direcção da rapariga, detendo-se no caminho para recolher o seu saco, e detendo-se novamente quando os seus olhos, negros de um lado ao outro, encontraram os dela. Ele sorriu. Não de forma ameaçadora, não para exibir dentes, não friamente. Se Mena não soubesse melhor, diria que ele procurava tranquilizá-la.

- Gostarias de ouvir uma história?

##############


Não havia uma sequência lógica na história do fragmentado, e os acontecimentos por ele relatados não seguiam uma linha cronológica. Em boa verdade, ele não parecia ter ideia de por onde devia começar, e saltava entre acontecimentos com uma velocidade que tornava custoso acompanhar o que dizia. Mas ninguém convenceria Mena a criticar as suas habilidades de contador de contos. Terror impedia-a de fazer mais que acenar e rezar por salvação.

Era um dos mais factuais factos do mundo, confidenciara-lhe ele, à luz da fogueira que acendera e junto da qual a amarrara, que quanto mais célere e elevada a ascensão, mais dura a queda que inevitavelmente se daria. No seu caso, ele soubera desde o início que uma queda teria lugar. Existiam regras, dissera-lhe, no mesmo tom ameno e de melódica cadência com que se lhe dirigira desde o início. Regras para controlar aqueles da sua raça que caminhavam livres apesar do pacto, regras cuja infracção era severamente punida. Quando Mena lhe perguntara – a primeira frase a sair-lhe dos lábios em horas – quem se encontrava em posição de punir imortais com poderes inacreditáveis, ele respondera “Clay”. Um nome, uma palavra, e ela conseguira ver o quanto esta o afectava só pelo modo como a sua expressão mudara ao pronunciá-lo. Como se de facto houvesse uma razão para o temer. Como se aquele a quem pertencia pudesse ouvi-lo.

Ele nascera em berço de ouro, continuara o fragmentado, para logo corrigir que obviamente, não o queria dizer literalmente, pois berços de ouro eram desnaturados para um recém-nascido, e ele entendia o suficiente dos mistérios femininos para saber ser impossível dar à luz dentro de um. Fosse como fosse, o poder com que nascera só se equiparava ao outro poder com o qual nascera, um poder que o seu irmão não partilhava. O seu irmão mais velho, acrescentara com evidente rancor, o filho primogénito e herdeiro da posição de Senhor de Facção. Depois ele fizera a história saltar para o presente, e falara em Runa e na guerra. E Mena soubera.

Quando o fragmentado cessou de falar e apoiou o queixo na mão, ponderando como havia de prosseguir, ela fitou-o e murmurou “Serge?”. Ele colocou a cabeça de lado e sorriu um pequeno sorriso de aprovação. Para Mena, isso foi resposta suficiente, mas agora que ela tinha uma resposta, a rapariga estava incerta do que devia fazer com ela. O fragmentado pouco lhe fizera para além de a amarrar, assim como a Ilesh, que não voltara a si. Mena ainda não reunira coragem para lhe perguntar o que ele pretendia fazer deles, sobretudo porque não estava certa de querer saber o que ele pretendia fazer deles. Por enquanto, a história do fragmentado ia encaminhada por um caminho comprido, e a sua esperança mais viva era que esta se fosse alongar o suficiente para lhe permitir pensar num plano.

O problema era, Mena sentia dificuldade em desviar a atenção dele. O fragmentado falou. Ela escutou. E as fundações de tudo aquilo que a rapariga julgava saber levaram um estremeção.

- Começou com o pacto – disse o fragmentado. – Ou assim me contam. Não tendo lá estado, não sei até que ponto facto se confunde com lenda. “Em Hoza iremos permanecer”, prometeu o meu povo, e é conhecimento comum que o mundo terminará antes de um fragmentado quebrar uma promessa. “Em Hoza iremos permanecer, até as estrelas serem poeira e a morte nos levar”.

O fragmentado levantou a cabeça e olhou o céu, parecendo quase melancólico.

- Nós nunca morreremos. Nenhum de nós. E as estrelas brilharão por milénios mais. Para aqueles que disseram as palavras, não há escapatória. Mas eu nunca as disse. O meu pai nunca as disse.

- Porquê? – Mena quase sufocou na pergunta, mas ele não pareceu tomar nota disso.

- Nunca nos foi exigido. – O fragmentado encolheu os ombros. – Clay nunca demostrou reconhecer que existíamos. De entre todas as crianças do nosso povo que nasceram nos passados cinco séculos, só a nós ele não o exigiu. E assim pensámos, loucos que fomos, “Se ele nos ignorou todo este tempo, porque não tirar proveito dessa liberdade?”. – Ele riu amargamente, e por um instante fugaz, Mena esqueceu que se encontrava na presença da causa indirecta de milhares de mortos.

Então ele olhou-a nos olhos, e ela recordou que se encontrava na presença de um monstro.

- Porquê? – A jovem perguntou-o quase num suspiro, mas o fragmentado ouviu-a. – A guerra. Caos e morte e feridos e desalojados, e cidades devastadas e órfãos a pedir esmola nas ruas. Qual foi o objectivo?

- Poder – respondeu ele, simplesmente. Como se a palavra contivesse todas as explicações do mundo, e acreditasse piamente que ouvindo-a, ela entenderia. – Para que mais adianta viver?

Mena nada disse, mas o fragmentado parecia saber o que ela calava, pois ele acrescentou:

- Tu não consegues ver. Lamentável, mas não tão lamentável como o facto de não seres a única a padecer dessa cegueira. Poder, Mneme, é aquilo a que os pequenos aspiram e que os grandes procuram a todo o custo manter e aumentar. Poder, e o desejo de o conseguir, é o engenho que move o mundo. – Os olhos dele caíram sobre as chamas, e os seus lábios pressionaram-se num botão. Se Mena não soubesse melhor, esta diria que o outro amuava. – Poucos entendem isso. Ele não entendeu isso. E por não o entender, foi impossível convencê-lo a não arruinar tudo.

- Ele? Clay? – O fragmentado sacudiu a cabeça.

- Não. Ele, o ele a que me refiro, é chamado por muitos nomes, mas Clay não é um deles. Ele é Elir e Elomere, Ellu e Elmuir, o Trapaceiro, o Prisioneiro da Montanha, o Renascido das Chamas e Aquele Que Escapou. Um do meu povo, desaparecido por cinco séculos e agora regressado. O único, para além de Clay e de nós os ignorados, que não disse as palavras. Ele caminha livre, e há meses atrás…- O fragmentado calou-se, e as suas mãos fincaram-se no pedregulho no qual se sentava, até os nós dos seus dedos perderem a cor. Porém, quando voltou a falar, a sua voz era firme. – Há meses atrás ele caminhou, livre, até aos portões da cidade capital, e exigiu de mim e do meu pai o fim da guerra. – Os lábios dele esticaram-se num sorriso que era muita coisa, mas sobretudo cínico. – Nós recusámos. Nós oferecemos-lhe um lugar de honra na nossa mesa e na nossa casa, quando soubemos quem ele era. Elir, Trapaceiro e tudo o resto, e pai do primeiro Senhor de Runa. Nós acreditámos que o faríamos ver a razão. Que ele seria um recurso valioso.

- Ele não foi. – Os olhos de carvão do fragmentado cravaram-se nela com uma fúria tal, que Mena recuou o mais que as cordas lhe permitiam. Não muito, mas o suficiente para a recordar de que ela devia estar a pensar num meio de fuga, algo de que a curiosa recusa do fragmentado em atacá-la a fizera esquecer. Ele não estava a agir como um monstro, e isso perturbava-a mais que tudo.

- Não - confirmou o fragmentado. - Ele ameaçou-nos. Afirmou que caso persistíssemos naquilo a que chamou a nossa “patética convicção de que o único objectivo de vida válido é a opressão e domínio daqueles que outros estão a oprimir e dominar”, mandaria Clay resolver o assunto. O meu pai riu-se. Disse que ele nunca o faria, pois nenhum do nosso povo que escapou ao pacto iria querer chamar a atenção de Clay sobre si. Mas as suas palavras não me convenceram, e por segurança, cobrei um favor antigo e tratei de que o meu filho fosse levado para localização segura. Kale imitou-me, mas escolheu mal o lugar. Tanto a sua mulher como a sua criança foram mortas.

Mena pensou em Ni e Val e Frix, e num assassinato e num cesto.

- Filho? - disse ela, escolhendo uma das vintenas de questões que cirandavam na sua mente.

- Ilegítimo. Eu teria desposado a sua mãe, pois sabe o Destino que a amava o suficiente…- E essas eram palavras estranhas para sair daquela boca, mas inexplicavelmente e impossivelmente, Mena julgou que soavam como se houvesse uma gota de verdade nelas. - Mas o nosso tempo nunca chegou, e ela desapareceu durante a quebra do meu domínio. Aquele que teria sido o nosso domínio. Com uma palavra sussurrada no ouvido de Clay, Ele de Muitos Nomes alterou o final da história. Runa caiu. O meu irmão está morto, e o meu pai vagueia em espírito. Excepto que…

- Excep…- Mena não terminou. O fragmentado acabava de desprender as cordas que mantinham fechado o seu saco de viagem. Ela estivera tão focada no seu rosto, nos seus olhos e no som da sua voz, que nem se apercebera de que ele o puxara para perto de si. Agora que o abriam à sua frente, a rapariga compreendia que ela não quisera saber o que se encontrava dentro dele.

- Excepto que, quando uma história é terminada - continuou o fragmentado, num murmúrio - há, sempre e ainda, a possibilidade de lhe dar continuidade. O que está escrito não pode ser alterado, mas pode ser convertido em nada mais que um ponto baixo do percurso. Vira a página…- Mena foi puxada para a frente por uma força exercida por corpo nenhum, que a trouxe para muito mais perto do fragmentado e do saco do que ela desejava. Este último, que até então se mantivera inerte, agitava-se como se contivesse algo vivo, mas o ângulo da abertura não lhe permitia certificar se isso era ou não um facto. -…e preenche-a com o teu futuro. - O olhar que ele lhe deitou foi frio como gelo, negro como a noite, cruel como crueldade, mas o timbre da sua voz não se alterou uma oitava. - O meu, evidentemente. Tu morres no fim deste trecho. Assim como aquele ali - adicionou, apontando para Ilesh. - Não é pessoal, entende. Vocês são meramente convenientes.

Mena gritou, em vão. O fragmentado deixou o saco cair, e o pesadelo saiu dele.





QUINZE ANOS MAIS TARDE...





O fragmentado olhou para o rapaz e depois para o outro rapaz, que estava deitado no chão.
As suas sobrancelhas franziram-se á visão, o que conjugado com a sua boca estar caída de quando escutara o ainda mais estranho pedido que lhe acabava de ser feito, conferia ao seu rosto uma expressão caricata que em nada se ajustava àquilo e quem ele era.

- Eu preciso de uma resposta – disse o rapaz que não se encontrava inconsciente. Ele tinha os olhos. O fragmentado, cujo actual nome era Elmer, estava convencido de que ele os alterara propositadamente para terem a cor que tinham, a aparência que todos eram rápidos a associar ao seu povo. O catraio quisera que não existissem dúvidas daquilo que ele era. Como se a aura de poder que o envolvia não parecesse, para aqueles capazes de ver, o espelho negro de uma supernova. Como se um mortal o tivesse sabido encontrar. Como se Elmer não tivesse sabido com o que tratava no instante em que aquele com quem tratava lhe revelara o seu nome.

- Eu estou a pensar – replicou. – Admite que o que me propões não é um compromisso que posso fazer sem primeiro ponderar. Ou sem que todos os termos sejam clarificados. – O rapaz anuiu, sério. Ele tinha tanto do seu pai que encará-lo era quase desconfortável. As semelhanças transcendiam o aspecto, que para um fragmentado era uma variável. Olhando-o, falando-lhe, e tendo convivido o suficiente com Hector Clay para reunir material de comparação, era impossível não ver que pai e filho eram duas mentes do mesmo molde. - Entre outros factores que me fazem estar de pé atrás quanto a tudo isto, há aquilo de o teu papá ir explodir quando souber.

- Razão pela qual te estou a pedir a ti, em vez de me deslocar a Hoza. De entre todos do nosso povo, tu és o único que pode gabar-se de o ter desafiado e vencido. O único que não se absterá de me ajudar por temer uma retaliação. - Bem, aquele ali tinha a lisonja elevada a arte.

- Apelar ao meu ego não funcionará. Assim como tentar chamar-me àquilo que consideras razão, duvidar da minha coragem, subornar-me e convencer-me à força. Eu irei ignorar-te, rir-me na tua cara, recusar-te e obliterar-te. Portanto, porque não passámos directamente para a fase em que me ameaças? Afinal, se te deste ao trabalho de arrastar até aqui os meios para o fazer…

- Ameaçar? - Era curioso, mas o jovem parecia genuinamente confuso. Os seus olhos seguiram os de Elmer, para irem cair sobre o rapaz caído entre os dois, e compreensão iluminou-os. Indignação foi rápida a seguir-se. - Não foi para esse fim que o trouxe. Eu nunca…eu nunca faria isso.

- Não? - Elmer ergueu uma sobrancelha, intrigado com aquela reacção. - Isso é uma promessa?

- Sim. - E essa réplica…surpreendeu-o. Especialmente porque o rapaz não hesitara em dá-la. - E antes que te ocorra perguntar, eu sei. Palavra dada não pode ser quebrada, e eu não tenciono.

- Impressionante - disse Elmer. - Como suponho que terá sido a tua intenção. Então eu devo ajudar porque conheces as regras, e porque te recusas a rebaixar-te ameaçando um inocente?

- Se o quiseres encarar assim. - O rapaz baixou os olhos para o chão, antes de acrescentar, numa voz tão incaracterística de Clay ou fragmentado que Elmer foi abruptamente relembrado de que a aparente juventude dele correspondia à realidade: - Isto é difícil para mim, também. Mas é destino.

- Destino? Quem te disse isso, um oráculo? Porque sabes o que se diz sobre oráculos.

- Não foi um oráculo - respondeu ele, meio para dentro. - Outra pessoa. Aquela outra pessoa.

Elmer ia falar, mas uma súbita compreensão deteve-o.

- Ah - disse, passados momentos. Isso mudava tudo, o que implorava pela questão de porque não o dissera o miúdo em primeiro lugar. Todavia, olhando para a sua expressão e para o modo como os músculos dos seus braços se encontravam rígidos e retesados, Elmer julgava perceber. - Se foi Ela a dizê-lo, suponho que não há outra opção. Todas as escolhas dão no mesmo quando se caminha pelo seu caminho, e tudo isso. Precisas de um momento, ou queres fazê-lo de imediato?

- Eu vim preparado. - O rapaz deitou um olhar de relance à figura caída, antes de sacudir a cabeça e se refazer. Do seu bolso ele tirou um papel dobrado, que entregou ao outro. - Instruções para… depois. Tendo em conta que não estarei em posição de dar ordens durante algum tempo.

Elmer desdobrou o papel e esquadrinhou o que se encontrava escrito nele.

- Tu estás doido. - Foi o veredicto. - E parto do princípio de que esperas que eu vá cooperar com a tua loucura. - Uma segunda vista de olhos não tornou o texto menos custoso de digerir. - Tens consciência de que metade disto tem potencial para dar em desastre?

- Eu tenho - respondeu o outro, muito baixo. - Acredita que tenho. Podemos continuar?

Elmer acenou e gesticulou-lhe que desse um passo em frente. O rapaz assim fez, fechando os olhos por um instante. Estes eram cinzentos quando os abriu, o que poupava ao fragmentado o trabalho de ser ele a mudá-los. Ele levantou a mão, pousou-a na sua fronte, e concentrou-se.

- É estranho - disse o rapaz, enquanto memórias se desprendiam da sua mente e fluíam para a de Elmer, que as observou de passagem e sem real interesse, antes de as armazenar num canto recôndito da mente que era ele - pensar que dentro de momentos serei normal. Eu lembro-me de imaginar, quando era mais novo, como seria. Não ter poderes. Gozar a vida com a consciência de que ela é efémera. - Elmer abrandou mas não interrompeu o fluxo, para melhor o poder encarar.

- O que estou a fazer - articulou ele, devagar e com caução - não te irá dar isso. Tornar-te mortal está para lá das minhas habilidades, ou das de quem quer que seja. Assim como não posso retirar-te o poder que tens, meramente fazer-te esquecer que ele existe. Tu irás acreditar-te normal. Nada mais, e nada fará com que haja mais. Apenas para que isso fique esclarecido.

- Eu sei - respondeu o outro. A até ali inabalável sinceridade da qual a sua voz estava cheia vacilou quando o disse.
- E mesmo apenas essa crença será suficiente para te tornar um alvo fácil. Indefeso. Vulnerável.

- Eu sei! - Elmer suspeitava que aquilo era o mais parecido a um grito que conseguiria retirar do jovem, e traçou com mordaz satisfação um risco na coluna mental Ele versus Família Clay. - Eu…

O rapaz deteve-se e franziu a testa numa infrutífera tentativa de recuperar o fio da meada dos seus pensamentos. Elmer calculou já lhe ter retirado suficientes recordações e efectuado suficientes alterações para que as coisas na cabeça dele se estivessem a tornar caóticas.

- Inconsciência costuma ser recomendada para a parte que se segue - informou ele. Um estalar de dedos encarregou-se de resolver esse pormenor, e Julian Clay bateu no chão com uma força que fez o fragmentado supor ser uma boa coisa que este possuísse poderes de cura.

Não que ele fosse sabê-lo quando despertasse, evidentemente.

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MensagemAssunto: Re: Passagem   Dom Fev 19, 2012 4:01 pm

Capítulo III


No início, aprendera Endriya numa das suas aulas semanais, o mundo não era mundo, e existiam quatro irmãos que se odiavam. O mundo nascera porque certo dia, o Deus dos Rochedos tivera com o Deus das Águas a pior de todas as altercações. No seu decorrer, o fratricídio fora inventado, e dos corpos mortos das duas divindades haviam nascido o continente e o oceano.

Endriya recordava que quando ele chegara àquele ponto da explicação, o mestre se interrompera para deixar a sua jovem audiência interiorizar que viviam sobre um cadáver. Ela também recordava que quando ele o fizera, houvera uma voz que perguntara se era verdade que um dia as estrelas se apagariam. E o mestre sorrira, e procedera a horrorizá-los mais ainda.

Era verdade, dissera ele, que o Deus dos Ventos e o Deus das Chamas haviam olhado para os actos dos seus irmãos caídos, e inventado o plágio. Mas eles tinham-no feito em simultâneo, e por serem equivalentes em força e talento, a luta de ambos arrastara-se através dos milénios, e continuaria a arrastar-se até um deles sair vencido. Quando esse dia chegasse, o sol e as estrelas apagar-se-iam, o ar tornar-se-ia irrespirável, e o mundo conheceria o seu fim.

Depois daquela lição, Endriya nunca mais olhara para o céu da mesma maneira.

- Endriiiiiya! – De momento, Endriya estava a olhar para o céu através da janela, sem temor, e sem os olhos estreitados na esperança de avistar as divinas figuras que combatiam acima das nuvens. Ela olhava-o em súplica, e enquanto o fazia, procurava impedir que os seus olhos revirassem para dentro da sua cabeça. Se, e Endriya não estava certa de se pensar assim não era blasfémia, os quatro deuses tivessem tido uma não-exactamente-prima, eles teriam estado demasiado ocupados a privá-la da sua sanidade para se preocuparem com assassinatos e criação de mundos. - A Iver diz que o quarto é dela, mas não é. Ela é uma mentirosa que mente e diz mentiras.

- Sim, Talla. A Iver é uma mentirosa - concordou ela, distraidamente. O berro de “Não sou não!” que a sua prima mais nova soltou, de onde quer que esta se encontrasse escondida, reverberou pela casa inteira. Segundos mais tarde, Iver abeirou-se dela, em desalinho e a bufar.

- Eu não sou uma mentirosa! - declarou a sua priminha, do alto dos seus seis anos. Talla, a autora da acusação, agarrou as pernas de Endriya e tentou usá-la como escudo quando a outra veio em sua perseguição. As duas eram leves demais para a derrubar, mas tê-las a colidir com ela e contra ela era imensamente incómodo. - Não sou, não sou! Endriya, diz-lhe!

Endriya suspirou. Ignorar a irritação na esperança de que esta desaparecesse não era uma táctica que funcionava com aquelas duas. Não quando estava em causa algo que tanto Talla como Iver julgavam ser de máxima importância. Um quarto, naquele caso. Desis ia casar, razão pela qual Endriya tinha os braços enfiados até aos cotovelos dentro de um alguidar de enchidos, e a sua saída de casa deixaria desimpedida a divisão que era o pomo da discórdia. A regra estabelecida era que a mais velha das raparigas da casa tinha direito a um quarto para si. O problema com Talla e Iver nascia de estas serem gémeas idênticas. Nem a mãe das duas sabia qual delas era a mais velha, e desde que o noivado entre Desis e o filho do talhante fora anunciado, não passara um dia sem que as irmãs guerreassem para estipular quem detinha senioridade.

Endriya mantinha-se à margem da luta. Em teoria, o quarto devia ser seu. No entanto, o acordo tácito que tinha com a família que não era a sua família estipulava que, desde que ela não lhes desse razão para o fazer, eles não a recordariam de que não era realmente um deles. Endriya evitava dar-lhes razões, o que envolvia trabalhar bem, reclamar pouco, nunca pedir mais do que aquilo que lhe era dado, e nada fazer para denegrir a família por associação. Em catorze anos, Endriya elevara ser útil e de fácil trato à categoria de arte. Era pena que tivesse falhado em tornar as suas primas tão meneáveis como se tornara a si própria, pois presentemente, Iver e Talla estavam a rebolar pelo chão, agarradas uma à outra de modo decididamente pouco fraternal.

- Alesendriya, que em nome dos Grandes Quatro se está a passar aqui? - Mesmo que a voz que gritava não fosse inconfundível, Endriya teria sabido quem entrara antes de se virar. Só a sua tia e o livro de registos de Nen a tratavam pelo nome inteiro, e o guarda-livros da aldeia não era suficientemente mágico para fazer as páginas falar. - Talla. Iver! Expliquem-se.

As duas meninas pararam de lutar e entreolharam-se.

- Foi ela! - bradaram em simultâneo, espetando dedos acusadores no peito uma da outra.

- O quarto - acrescentou Endriya, à laia de explicação. A avaliar pela compreensão que se instalou, de armas e bagagens, no rosto da sua tia, tratara-se de esclarecimento mais que suficiente.

- Para cima, vocês as duas! - ordenou esta. Talla e Iver foram rápidas a desaparecer, e o silêncio que se instalou quando partiram foi quase antinatural. Endriya moveu o alguidar para o outro lado da bancada, abrindo espaço para que a mulher se sentasse. Ela fê-lo, pesadamente. - Da próxima vez que elas estiverem a brigar como cães, faz como farias a um cão e despeja-lhes água fria em cima. Se eu soubesse que o cinco vezes maldito quarto ia causar tanto alarido, teria insistido com a Desis para adiar a sua saída até aquelas duas amadurecerem. - A jovem produziu um pequenino som de cepticismo à noção de que Talla e Iver algum dia ganhariam maturidade. - Engraçado, é?

- Não, tia. Apenas improvável - replicou ela.

- Improvável? Jovenzinha, sem contar contigo, eu criei cinco filhas. Todas são assim nessa idade. A Desis foi a pior de todas elas, e é vê-la agora, quase uma mulher feita. - Havia um tremor na voz da sua tia que não passou despercebido a Endriya. Quando esta enxugou uma lágrima solitária, a rapariga fingiu não notar. - Verdade seja, eu teria preferido que antes de assentar ela tivesse ido trabalhar em Noor, mas o rapaz diz que a ama, e ela diz que o ama de volta, e ele tem lá o talho para os sustentar aos dois, portanto não há mal em casarem cedo. Mas esta casa irá ficar tão mais vazia quando vocês as duas se forem, isso é facto - concluiu ela, não sem uma certa amargura.

Endriya tentou sorrir encorajadoramente e falhou.

- Eu não me irei embora por mais uns anos - disse. A sua tia piscou na direcção dela.

- Oh, o teu tio não te contou ainda? - Devia ser evidente pela expressão dela que nada lhe fora contado, pois a mulher tapou a boca com a mão, rindo para dentro. Endriya assumiu ser um indício favorável que qualquer que fosse a situação em causa, esta parecesse divertir a sua tia. - Quatro. E eu que me questionava porque não estavas a dizer nada a respeito. Com a cabeça que aquele homem tem, e o casamento para daqui a dias, deve ter-lhe passado ao lado. Alesendrya…- A rapariga soltou um guincho de aviso, mas era tarde demais para impedir a outra de lhe agarrar as mãos imundas. A sua tia não parecia importar-se, porém. Nojo não figurava na mistura de emoções que a sua face exprimia. - Ofereceram-nos um aprendizado para ti. Não é maravilhoso?

Endriya pestanejou. Os lábios dela entreabriram-se. O seu queixo descaiu ligeiramente.

- Eu…- disse ela, e um instante mais tarde, a jovem percebeu que não sabia o que haveria de acrescentar, e que outra reacção seria mais adequada que aquela que estava a ter. - Isso é…bom?

- Invulgar - completou a sua tia, acenando como que para consigo. - E duplamente invulgar por ter sido oferecido por quem o ofereceu. Mas deuses, como é possível que só estejas a saber agora? Quando não pediste o quarto da Desis para ti, julguei que tinha sido por não contares ficar cá muito mais tempo. - Endriya acenou, sentindo a cabeça rodopiar, ao mesmo tempo que uma sensação quente e líquida se alojava no seu peito e lhe dava um aperto. Não apenas porque lhe ia ser dada uma oportunidade de aprender outro mester que não o de esposa e mãe, mas porque lhe teria sido permitido ficar com o quarto se ela o tivesse pedido. Tê-lo não lhe interessava, e seria de boa vontade que o cederia a Talla ou Iver, se fosse possível fazê-lo sem iniciar uma guerra. Que a possibilidade de ela o ter existira, isso enchia-a de uma alegria grande demais para ser expressa com palavras. Endriya não o tentou. Em vez disso, sorriu até a boca lhe doer.

- Quem foi - inquiriu ela, mal os seus músculos faciais relaxaram - a pessoa que fez a oferta?

A sua tia contou-lhe. Endriya passou o quarto de hora seguinte a levantar o queixo do chão.

#############


O Convento era um grande edifício de três andares, cúbico e com poucas janelas. Rodeavam-no um muro com metros de altura e um jardim, se é que jardim se podia chamar a meia dúzia de metros quadrados de relva e um arbusto careca. A única entrada do edifício era um portão minúsculo, por onde diariamente entravam e saíam dúzias de pessoas de gestos esquivos e expressões insondáveis. Caso se resolvesse criar um concurso de construções que transmitiam a mensagem “Mantém-te longe” sem precisarem de um letreiro, o Convento seria um forte candidato ao primeiro lugar, mesmo numa cidade onde era impossível esmurrar uma parede sem se ficar com a impressão de que a parede se continha para não devolver o soco.

O Convento não era realmente um convento. As letras metálicas pregadas do lado de fora do muro davam o edifício como sendo o SAI, uma sigla que por motivos desconhecidos, nunca pegara como nome. SAI era sigla para Serviço de Assuntos Intermundiais. A maioria dos locais acreditava tratar-se de uma tentativa risível de dar um ar oficial àquilo que era, indubitavelmente, alguma obscura seita religiosa ou uma congregação de ocultistas. Essa crença era solidificada pelo facto de as cerca de duas dezenas de mulheres que geriam o Convento serem, sem excepção, pessoas que remeteriam os pensamentos de qualquer um para claustros com fraca iluminação e salmos entoados à meia voz. O que se passava dentro do Convento ficava dentro do Convento, e tanto quem o habitava como quem o visitava mantinha silêncio sobre as suas actividades.

O Convento encontrava-se encalhado na parte sudeste de Velha Delmonte. Velha Delmonte era a cidade vizinha da maior, mais moderna e mais agradável Nova Delmonte. A Nova estava para a Velha como uma modesta quintinha com um só tractor está para uma plantação automatizada, com o acréscimo de que ambas as cidades eram habitadas por pessoas sobre quem não seria despropositado dizer-se que um tractor lhes passara sobre as cabeças quando eram pequenas. Em acréscimo, as cidades-irmãs sofriam de clima doido. O boletim meteorológico falhava consistentemente desde que começara a ser emitido, e se fazia sol de manhã era certo e sabido que choveria granizo à noite. Gente com medidores e impressionantes termos técnicos tinha vindo, em anos anteriores, para descobrir a causa do fenómeno. Essa gente viera e partira sem encontrar explicação, e entretanto, continuava a nevar em Julho.

Miranda Dale nascera em Velha Delmonte, mais especificamente, no Convento. A sua mãe fora uma das suas habitantes, frágil de saúde e frágil de espírito, e o seu pai um soldado, embora só aos onze anos lhe tivessem dito em que guerra ele combatera e em que guerra viera a perecer. Miranda passara os primeiros cinco dos seus catorze anos colada aos calcanhares das mulheres que habitavam o edifício, a observar as suas andanças e a colocar questões. Quando ela entrara na idade dos porquês, as perguntas haviam dobrado em frequência, mas nenhuma delas se relacionara com o motivo de o mar ser azul, ou de aves voarem e peixes nadarem. Em pequena, Miranda quisera saber o porquê de os emigrantes do Mundo de Baixo falarem como se falava em cima, e a razão de parecer que todos os que vinham para ficar precisavam de passar primeiro pelo Convento. Ela questionara a senhorita Ebbs, que tratava da aprovação e carimbagem de documentos, sobre as diferenças entre aqueles que chegavam das Terras Selvagens e das vinte e quatro facções, e as razões de usurários de magia precisarem de se registar como tal.

Até aos cinco anos de idade, Miranda fora uma criança curiosa, charmosa e vivaz. Dela, as mulheres do Convento diziam que iria longe, e por ser perspicaz o suficiente para entender que esta não era muito bem-vista pelas suas colegas, Miranda sabia que não o faziam apenas para agradar à sua mãe. Depois, meses antes do seu quinto aniversário, ela decidira que correr atrás de adultos era perda de tempo. Havia pouco que estes não lhe tivessem já explicado ou mostrado, e eram muitas as partes do Convento onde eles nunca a tinham levado ou permitido aventurar-se.

Miranda conhecera Wendy três dias após ter começado a explorar. A sua mãe falecera uma semana mais tarde. De doença, disseram-lhe. A pobre alma nunca tinha sido o que se pudesse chamar robusta, e já há meses que esta tossia mais que o habitual. A sua morte, haviam tomado o cuidado de salientar, nada tinha a ver com o facto de Miranda ter descoberto, apenas alguns dias antes, que não era a única criança a viver no Convento. Na verdade, as mulheres tinham ido a tais extremos para o salientar, que Miranda acabara por convencer-se de que a causa não podia ser outra que não essa. Miranda sabia que de algum modo, por algum motivo, a responsável era a menina que sem que ela o soubesse, vivera todo aquele tempo no último andar.

E porque ela dava valor à vida, Miranda passou os anos seguintes a negá-lo a si própria.

#############


- Eu estou de partida. - Miranda olhou para cima. Ela estava na varanda, deitada sobre uma toalha, e estivera a apanhar sol enquanto lia, até uma sombra se agigantar sobre ela e lhe bloquear a luz.

Porque a pessoa que lhe estava a bloquear o sol era Wendy, ela fechou o livro. O livro que Miranda estivera a ler era sobre princesas, cavaleiros e dragões, porque todos os livros em que ela pegava eram sobre princesas, cavaleiros e dragões. Se lhe atirassem para as mãos o manual de um reactor nuclear, a sua linha de abertura transformar-se-ia instantaneamente em “Era uma vez…”. A jovem lamentava ter de o pousar, mas quando Wendy falava, mesmo que esta dissesse só uma frase e de seguida se calasse, a sua total e integral atenção era exigida. Consequências seriam sofridas caso falhasse em mostrar-se à altura.

- Tu estás de partida - repetiu Miranda, em tom morto. A jovem não acrescentou um “Para onde?”, ou um “Porquê?”. Em tempos, ela tê-lo-ia feito. Segundo as mulheres do Convento, aquelas que a conheciam desde criança e recordavam como ela havia sido antes de Wendy, Miranda tivera o hábito de falar mais que a sua conta e querer saber mais do que a idade ditava que devia saber.

Wendy emendara isso nela. Wendy emendara uma série de coisas nela, de todas as vezes que esta encontrara na personalidade da sua melhor amiga algo que não lhe agradava por aí além. Miranda depressa aprendera que era preferível evitar dar-lhe motivos para crer que emendas precisavam de ser feitas. Ela decorara as regras. Colocar questões estava absolutamente fora de questão, especialmente se estas se inclinavam na direcção de “Wendy, eu questiono-me sobre a moralidade, legalidade, e humanidade daquilo que acabas de fazer”. Falar sobre o que se passava entre elas, em particular se a pessoa a quem o contasse fosse a Sra. Trimade, era algo que Wendy nunca deixaria passar com impunidade. Negar-se a obedecer-lhe, idem. Miranda sabia o que era esperado dela, e o tempo ensinara-lhe que era perigoso frustrar essas esperanças.

- Sim. - Wendy sentou-se ao lado dela e abraçou as suas pernas, apoiando o queixo no declive entre os seus joelhos unidos. Elas eram diferentes como a noite do dia. Miranda era de estatura média a tender para o alto. Se Wendy escapava ao rótulo de anã era um tema sob discussão. O cabelo de Miranda era uma nuvem de caracóis loiro-escuro, que esta trazia sempre soltos sobre os ombros. O de Wendy era preto, e um escravo do rabo-de-cavalo. Wendy carregava no seu rosto de feições afiadas um ar de mau humor permanente. Miranda não era capaz de se recordar da última vez que o seu não se mostrara preocupado ou ansioso. Wendy dava aos outros desejo de gatinhar para debaixo de uma mesa só por estar na mesma sala. Miranda não assustaria um paranóico de coração fraco se decidisse saltar-lhe em cima num beco escuro, a usar uma máscara de Dia das Bruxas e a gritar “Buh!”. - E eu gostaria que viesses comigo.

Houve um milissegundo de pausa por parte da jovem. Depois a sua realidade reajustou-se.

- Se vamos embora a título permanente - disse Miranda - não tardarão a dar pela nossa falta. Alguém avisará alguém. E as pessoas que a Sra. Trimade avisará irão encontrar-nos. - A sua mente não questionava se ela queria ir embora ou não. Os seus desejos eram irrelevantes, ou tornavam-se irrelevantes quando a rapariga os confrontava com o facto claro e duro de que se eles contrastassem com aquilo que Wendy queria, Wendy acabaria com ela. Se a outra dizia que se ia embora, e que gostaria que ela viesse junto, Miranda não se enganaria em pensar que não se tratava de uma ordem apenas porque esta fora formulada como um pedido.

- Eu trato da Val - respondeu Wendy, soando segura de si. Não que esta alguma vez soasse insegura de sim. - E das outras. Tu apenas precisas de fazer as malas.

Miranda acenou, levantou-se e retirou-se para dentro, levando o livro consigo. Ela e Wendy partilhavam o quarto ao qual a varanda estava acoplada, mas delas duas, era Miranda quem passava mais tempo nele, algo que se tornaria claro para qualquer um que as conhecesse e que lá entrasse. As duas dormiam em idênticas e sólidas camas de madeira, posicionadas de ambos os lados da porta que conduzia ao corredor. O que restava de parede livre encontrava-se ocupado por estantes e pósteres, e um gigantesco guarda-fatos, que Miranda abriu. O lado do roupeiro normalmente ocupado pelas roupas de Wendy estava vazio. A cama de Wendy, essa tinha em cima uma mala de viagem, cuja gémea se encontrava aberta sobre a cama dela.

- Despacha-te - disse Wendy, curtamente. - Eu estarei a trocar-me na casa de banho. Para onde vamos, precisaremos de indumentária adequada. - Não que isso fosse relevante no que respeitava a Wendy, pensou Miranda sem humor. Para a sua melhor amiga, uma roupa era como qualquer outra roupa. Wendy tinha uma personalidade contagiosa, e esta infectava tudo o que vestia. Qualquer que fosse a cor ou estilo daquilo que colocasse no corpo, em menos de um minuto a roupa parecer-se-ia com a de uma executiva ou funcionária administrativa em miniatura. Miranda desenvolvera uma teoria sobre o que sucederia se Wendy se vestisse assim de propósito. A hipótese de o universo implodir em semelhantes circunstâncias não era de se pôr de parte.

Convencida de que a outra não estivera a brincar quando ordenara que se despachasse, ela começou a esvaziar as gavetas da secretária. Miranda não tinha muito em matéria de posses, mas Wendy era tão espartana no que tocava a propriedade que tudo o que fosse encontrar no quarto seria muito provavelmente dela. Wendy também não aprovaria que ela fosse levar às costas o conteúdo das três estantes, o que significava que teria de lidar com a árdua tarefa de decidir que livros deixar para trás. Não uma escolha tão difícil quanto isso. Miranda era uma leitora de um género só, e todos os volumes na sua estante giravam, directa ou indirectamente, em redor de uma princesa a quem um garboso cavaleiro salvava de um mostro. A mesma história, contada e recontada centenas de vezes, e ela só precisava de levar consigo a sua versão favorita.

Miranda tinha consciência, porque lera sobre o assunto, e porque ocasionalmente saía do Convento e apanhava vislumbres do mundo real, de que a sua amizade com Wendy não funcionava de acordo com a norma. Natural, tendo em conta que Wendy não funcionava de acordo com a norma. Wendy era especial. “Especial” era o mais aceitável eufemismo para “seriamente desequilibrada” que Miranda arranjara. Seriamente desequilibrada, por sua vez, era eufemismo para algo que Miranda se recusava a nomear, e certamente nunca nomearia na presença da outra.

- Tu ainda não estás despachada - disse Wendy, quando esta saiu da casa de banho. Miranda olhou para ela e pestanejou. Havia uma aura distintamente formal na indumentária que a rapariga escolhera, mas mais do que isso, a roupa que Wendy vestia era uma que seria estranha para quem não tivesse, como ela, visto o que vestiam os recém-chegados do Mundo de Baixo. - Podes ir trocar-te enquanto eu trato disso. As tuas roupas estão no cabide ao lado do lavatório.

Miranda deteve-se, com um questão nos lábios, mas uma vida quase inteira de habituação levou-a a baixar a cabeça e aquiescer. Wendy deu-lhe as costas, o que era bom. Se lhe via as costas, isso significava que Wendy se encontrava à sua frente, e se Wendy se encontrava à sua frente, isso queria dizer que Wendy não estava atrás dela. Wendy não era o tipo de pessoa que se quisesse ter atrás de si, pois Wendy tinha o hábito preocupante de ver as costas dos outros como lugares onde espetar facas. Mas para Miranda, olhar-lhe para as mãos era ainda mais crucial. Enquanto estas estivessem onde as podia ver, não estavam à volta do seu pescoço.

Miranda recuou para dentro da casa de banho, arrancou as roupas do cabide e vestiu-se num ápice. Era também uma boa coisa que não tivesse perguntado para onde iam, pois quando se examinou ao espelho, ver o que tinha vestido respondeu a essa pergunta. As suas roupas eram similares às de Wendy, embora não o suficiente para levar a crer que se tratava de um uniforme, e não o género de vestuário que era normal ver-se usar na rua. Não nas ruas do mundo no qual elas viviam, em todo o caso. Significando que Wendy não devia pretender que ficassem nele por muito tempo mais. Miranda exalou cuidadosamente, foi até à porta e levantou a voz.

- Wendy? Tu não és uma passante - disse ela.

- Não.

- Tu não tens nenhum passante à tua disposição, e nenhumas esferas-de-salto.

- Não.

- Então posso assumir que sabes de outro modo de chegar ao Mundo de Baixo?

- Sim. - Wendy correu o fecho da mala dela e pousou-a no chão. Miranda acenou para si, satisfeita por ter tido a sua dúvida esclarecida sem enfurecer a sua amiga no processo. Não que fosse fácil enfurecer Wendy. Isso era algo que Miranda precisava de lhe conceder: Wendy conseguia alternar entre “normal”, vilão de filme de terror e fada-madrinha demente, e sem ter de passar por estados intermédios, como se houvesse dentro da sua cabeça um duende com défice de atenção que se divertia a brincar com os interruptores correspondentes a cada estado. Todavia, o pavio da rapariga era comprido e as suas raras fúrias sempre calmas. Miranda só lamentava que ela não precisasse de estar zangada para causar danos irreparáveis. - Aí tens. Agora, vem.

Miranda olhou para a mala no chão e engoliu em seco. Elas iam viajar entre mundos, uma perspectiva que a amedrontava quase tanto como a excitava, e deixava um friozinho ambíguo no fundo do seu estômago. Ela conhecia inúmeras pessoas vindas do Mundo de Baixo, e sabia mais do que suficiente sobre o lugar para ter curiosidade em visitá-lo, mas também sabia o suficiente para ter noção de que se tratava de um lugar perigoso. A rapariga deitou um olhar de lado a Wendy, que estava parada, de pé e com ambas as mãos sobre as ancas, provavelmente a pensar no porquê de ela estar a hesitar em pegar na sua bagagem. Miranda supunha que fazia sentido que a outra não se mostrasse nervosa. Se alguém atacasse a sua melhor amiga, sentiria mais pena do atacante do que da vítima. Ela sabia de fonte segura que embora as trevas do outro mundo escondessem perigos inomináveis, Wendy era aquilo que os inomináveis temiam nomear.

Não Wendy em particular e mais o povo dela no geral, mas o saldo final era o mesmo. Tudo o que os fragmentados eram ditos ser, Wendy era e superava.

- Miranda? Para teu próprio bem, espero que tenhas adormecido em pé, e que por isso ainda não tenhas feito como te mandei. Caso contrário, mexe-te. - Automaticamente, e para contentamento da outra, Miranda pegou na sua mala. Esta era mais leve do que seria de esperar, talvez porque Wendy não se incomodara em arrumar livros dentro dela. As prateleiras das estantes continuavam cheias, e deixar tudo para trás causava-lhe alguma mágoa. Para além de Wendy, livros eram a única companhia que tinha. Wendy sabia disso. Querendo dizer que Miranda devia ter previsto que esta não lhe permitiria levá-los, e que a culpa de não o poder fazer era sua, por não os ter arrumado suficientemente depressa. - A nossa boleia não esperará por nós indefinidamente.

- Sim, Wendy - disse ela, docilmente. Mundo de Baixo, pensou para si. Em tempos, tinham-lhe dito que um dia iria longe. Irónico, que a mesma pessoa que a extirpara de tudo o que a poderia levar longe pelo seu próprio pé fosse a razão pela qual essa previsão se tornaria realidade.

Embora quem a fizera provavelmente não tivesse querido dizê-lo tão literalmente.
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MensagemAssunto: Re: Passagem   Ontem à(s) 1:40 am

So, eu tenho andado meio longe do fórum, mas voltei! O que quer dizer que tenho andado a ler isto aos bocaditos, e é bocaditos mesmo - eu páro a meio de um capítulo e volto daí a dez minutos, depois páro outra vez e vinte minutos depois estou cá cravada. Para já, tenho imensa pena da Mena. Eu gostava dela, a sério. Também tenho pena da Miranda, ela submete-se tanto às vontades da Wendy que quase não tem personalidade. Quanto à Endriya e ao Julian, well - não tenho muito a dizer. Só que adoro a dedicação dela à família (ou suposta família? Idk, fiquei meio à toa) e que espero que ficar sem poderes não o ponha em demasiado risco. Algo me diz que vai pôr, mas acho que é assim que as histórias funcionam.
Agora, estou meio curiosa. Quer dizer, tens pequenas cenas das vidas de várias pessoas, cujo único ponto em comum é a ligação ao Mundo de Baixo, e de resto nada. Estou meio à espera de um encontro entre todos, mas agora quando, como e para quê são noções que me ultrapassam.
E continuo a adorar a forma como escreves.
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Passagem

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